quarta-feira, 18 de março de 2015

Socialismo: entre a realidade e o sonho

Muitas vezes, é mais difícil mudar o sonho do que a realidade. Para que o socialismo se torne realidade, é preciso que os trabalhadores renunciem ao sonho de se tornarem patrões, que os pobres renunciem ao sonho de se tornarem ricos. Nisso consiste o grande desafio. Mudar a visão de que é mais fácil ganhar na loteria do que ter um governo comprometido com os trabalhadores.

Para aqueles que vêem o socialismo somente a partir do materialismo têm dificuldade para entender a dimensão do sonho. O sonho faz parte das nossas vidas, rompendo a toda hora a fronteira do possível. A esperança de melhora e a fé no futuro é o que move as pessoas. Para o marxismo, adquirir consciência de classe é uma etapa fundamental para que os trabalhadores pudessem chegar ao poder, passando a enfrentar os interesses da burguesia. O que não se previa é que os trabalhadores teriam tanta dificuldade em adquirir consciência de classe. Não se previa que a burguesia teria tanta capacidade de exportar os seus costumes e valores para a classe trabalhadora, não como realidade, mas como sonho, que pode ser mais poderoso que a realidade.


Os anúncios publicitários vendem os sonhos. As casas lotéricas vendem o sonho de se ter dinheiro para realizar os sonhos. O glamour, o requinte, a sofisticação, o luxo e o brilho ainda encantam grande parte da classe trabalhadora. Sem desfazer a ilusão nas coisas materiais não é possível avançarmos para o socialismo. "Quanto mais brilha a mercadoria, mais opaco se torna o ser humano.", como diria Marx. 


O ganho de consciência de classe ainda não ocorreu de forma generalizada. A maioria dos trabalhadores não se enxergam enquanto trabalhadores, mas como patrões que estão trabalhando e sendo explorados como que por um acidente do destino. Acidente que será desfeito tão logo eles possam enriquecer materialmente. É por isso que Marx alerta, mais adiante, que "os valores dominantes na sociedade são os valores da classe dominante." De fato, a classe do dominante, que detém o controle dos meios de comunicação de massa, continuam com uma espantosa capacidade de inculcar nos trabalhadores o desejo de riqueza, poder, glamour, luxo, prazeres carnais, do ócio, da competição, do ócio, etc. Evidentemente, eles contam com a colaboração das pessoas que se deixam iludir.

Desfazer o nó do novelo é criar uma consciência coletiva contra-hegemônica, com pessoas capazes de liderar pelo exemplo. De fato, o melhor que temos a oferecer ao outro não é o nosso julgamento, mas o nosso exemplo.

Não se trata de confundir o sonho com a realidade. Os marqueteiros investem nessa confusão. Trata-se de conhecer a realidade e de conhecer os sonhos. Trata-se de reconhecer a situação de miséria, exploração e injustiça em que se encontram os trabalhadores do mundo para que possamos traçar um projeto/sonho de mudança dessa realidade. O projeto/sonho de mudança que a burguesia oferece é o sonho de riqueza. Eles querem que a gente desista de salvar o mundo e lutemos para salvar a nós próprios, em prejuízo de todos os outros. Querem substituir o "salvemos o mundo" pelo "salve-se quem puder." Nós achamos que não faz sentido acender uma luz dentro do nosso quarto e deixar que o resto da humanidade pereça na escuridão. Também achamos que nenhuma luz pode ser acesa em uma casa sem o consentimento do seu morador. O socialismo não deve ser imposto enquanto uma ordem para crer.

Para destruirmos o capitalismo, precisamos mudar os sonhos dos trabalhadores. Ao invés de sonhar com a riqueza e o ócio, eles podem sonhar com um mundo melhor para todos, em que o trabalho seja justamente distribuído e realizado. Sem dúvida, no sistema socialista, poderá haver uma grande redução na jornada de trabalho e um aumento na qualidade de vida das pessoas.

Kant já dizia: "Age de tal modo que sua ação possa se converter em lei universal". Ora, não é possível que todos sejam patrões, pois faltariam trabalhadores. Mas é possível que todos sejam trabalhadores, pois o domínio exercido pelos patrões é desnecessário. A partir da tomada de consciência, as pessoas poderão realizar o seu trabalho e cumprir a sua missão sem sofrer com as ameaças e chantagens dos patrões.


Resgatar a dimensão do sonho e viver esse sonho desde já, por meio do exemplo. Essa é a missão e o projeto do militante socialista.

Resgatar o socialismo no seu caráter ético, dos valores, dos hábitos e costumes. Esse é caminho para chegar ao socialismo sem passarmos pela violência e pela ditadura.
Resgatar a dimensão espiritual do socialismo, enquanto um plano de progresso na grande marcha humanidade. E que este projeto potencialize as liberdades individuais, em sintonia com a igualdade e a fraternidade.

"Nós estamos pre-destinados ao socialismo. E temos que trabalhar por ele."

A profecia e o trabalho são indissociáveis.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Oração de ano novo

Que deste ano em diante
Eu não sinta nem inveja, nem raiva e nem pena de ninguém
Que a inveja seja substituída pela sincera admiração
Que a raiva se converta em paciência
Que a pena dê lugar à compaixão

Que todos os rios de bondade

Desaguem no Oceano do Amor.

domingo, 12 de outubro de 2014

Vale a pena o voto crítico em Dilma?

Vou escrever este texto para expressar uma indecisão. Vale a pena, enquanto militante de esquerda socialista, dar um voto crítico em Dilma no segundo turno das eleições presidenciais? Ou é melhor anular?

Kátia Abreu, famosa fazendeira, latifundiária, ruralista do Tocantins, declarou voto em Dilma. Sarney, Maluf, Collor e Renan Calheiros são antigos aliados do PT nestes 12 anos de peripécias no poder. PMDB e PP, partidos notadamente conservadores, são aliados prioritários do PT. Corrupção corre solta, como sabemos. Nestes últimos quatro anos, foi notável a privatização de rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hospitais universitários. No trato com os movimentos sociais, a cooptação é a tática 1 e a criminalização é a tática 2. Como a tática 1 não tem funcionado nos últimos quatro anos, o PT não pensa duas vezes antes de usar a tática 2: criminalização. No Rio Grande do Sul, o jovem militante do PSOL, Lucas Maróstica, participante das manifestações, está sendo brutalmente perseguido política e judicialmente. Prisco, líder sindical da Bahia, ficou preso na Papuda, em Brasília, depois de participar de uma mobilização grevista. Só para citar dois exemplos.

Por outro lado, sabemos que ouve alguns avanços no sentido do combate à pobreza, via Bolsa Família, e alguns outros programas sociais. A política econômica do PT parece ter um viés mais keynesiano, enquanto o PSDB mais liberal ortodoxo. O PSDB tem, em tese, uma disposição maior de arrochar salário durante uma crise, como a que passamos. Houve muitas conferências nacionais e criação de conselhos para supostamente aumentar a participação social. Apesar disso,as resoluções das conferências, como as da Conferência Nacional de Comunicação, não foram cumpridas. Falou mais alto o acordo do PT com os conservadores que atravancam a democratização da comunicação.


Reforma agrária parada. Demarcação das terras indígenas e quilombolas paradas. É, acho que Kátia Abreu tenha mais motivos para votar em Dilma do que eu. Aliás, ela tem muito mais acesso ao gabinete da Dilma do que as lideranças de movimentos sociais. Em fevereiro deste ano, durante o Congresso do MST, em Brasília, Dilma foi ao Mato Grosso se encontrar com aliados e "comemorar" mais uma safra de soja. É deles que vem o dinheiro para fazer sua campanha multimilionária e é com eles que ela vai comemorar mais uma safra de votos, se vencer as eleições.



Dilma tem um importante histórico de luta contra a ditadura. Ficou presa durante quase três anos. Mas infelizmente a Dilma de hoje não é a mesma da juventude. A Dilma mudou. A Dilma está com Kátia Abreu, que está com a soja, que está com ouro, com a Dilma, com o agronegócio, com os transgênicos, com os agrotóxicos, com a monocultura, com a depredação ambiental, com o superavit na balança comercial, com a defesa da paz burguesa. Infelizmente.

Até agora, o principal argumento que ouço para votar em Dilma é o que o Aécio é pior. Esse é um argumento muito frágil.


Enfim, estou aberto ao debate. Talvez ainda possa ser convencido até o dia 26.

Meu partido, o PSOL, deixou em aberto: anular ou votar em Dilma: http://www.psol50.org.br/site/noticias/3014/seguir-lutando-para-mudar-o-brasil

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Luciana Genro – Socialismo sim!

“Há pessoas que não conseguem ver, nos outros, nada além dos vícios que carregam em si mesmos.” Leonel de Moura Brizola

Nestas eleições, existe uma candidata a presidente que defende o socialismo. O nome dela é Luciana Genro. Ela não tem muita atenção da mídia. Os magnatas da imprensa só acompanham os candidatos principais. E quem diz quem são os candidatos principais? A própria mídia, por critérios obscuros e questionáveis. A mídia escolhe os principais, a mídia escolhe os seus príncipes e os divulga exaustivamente, de modo que as pessoas acreditem firmemente que só os príncipes escolhidos pela mídia podem vencer as eleições.

Mas existe uma candidata que está fora deste principado midiático e que está chamando muita atenção nas redes sociais, por suas ideias firmes e coerentes, comprometidas com a transformação do Brasil. É a Luciana Genro, candidata do partido socialismo e liberdade. Uma mulher de luta, que esteve nas jornadas de junho, levou spray de pimenta na cara, como muitos de nós, e continuou lutando. Pois a nossa vida é feita de luta e só a luta muda a vida.

Mas ela tem sido criticada também por ser socialista. Então vamos falar um pouco sobre isso.

O que é o socialismo afinal?

O socialismo é a ideia de que todas as pessoas podem ser amadas e respeitadas pelo que elas são e não pelos bens que possuem. O socialismo é a flor que nasce no asfalto, enfrentando a rigidez dos costumes e o conservadorismo político e combatendo, antes de tudo, a ganância dos capitalistas.
Mas o socialismo não é uma ideia abstrata. Ele se materializa a partir das lutas concretas do povo por dignidade e direitos. Por exemplo, os garis do Rio de Janeiro eram oprimidos com salários baixíssimos e uma jornada massacrante de trabalho. Eles resolveram fazer uma greve para exigir, dos seus patrões e do governo, um reajuste salarial e melhores condições de trabalho. Nós, socialistas, apoiamos firmemente a luta dos garis.

Outro exemplo: quando os patrões queriam aumentar o preços das passagens de ônibus, em junho do ano passado, o povo saiu às ruas para rechaçar o aumento e defender o transporte coletivo como um direito de todos, a ser prestado de forma pública, gratuita e de qualidade. Os socialistas marcharam lado a lado com os manifestantes.

Outros exemplos: as mulheres que são vítimas de violência doméstica, os negros que são vítimas de racismo, a população LGBT que é vítima de homofobia, os indígenas que são expulsos de suas terras, os animais que são vítimas de inúmeros mal-tratos. Todos eles podem contar com o apoio dos socialistas. Pois o socialismo é a ideia generosa da emancipação humana e do combate a todas as formas de preconceito.

Foi lançado um vídeo em que alguns jovens capitalistas criticam uma das propostas de Luciana Genro: o imposto sobre grandes fortunas. Eles afirmam que isso geraria uma fuga de capitais do país. Então vejamos, países europeus, como França e Suécia, já possuem esse imposto. É fato que algumas pessoas, por ganância ou por ignorar os objetivos desta política, tentam enviar o dinheiro para o exterior, onde há menos impostos. Foi o que fez o ator francês Gérard Depardieu. Ele não percebe o mal que está fazendo para o seu país. Se ele trabalhou e ganhou o seu dinheiro no cinema francês, que é incentivado pelo governo francês, é evidente que, por responsabilidade social e política, deve pagar os impostos ao governo Francês, devolvendo à sociedade aquilo que ela investiu na promoção do cinema francês.

É importante lembrar que um erro não justifica o outro. Se Gérard Depardieu ignorou os esforços do governo francês para incentivar a cultura e o cinema e decidiu tirar o seu dinheiro da França, isso não significa que o imposto sobre as grandes fortunas deva ser retirado. É preciso que ele esteja aliado a uma política de controle de capitais, para evitar essa fuga. Ao mesmo tempo, é necessário um amplo processo de conscientização do povo sobre as políticas governamentais, para que elas hajam pensando no interesse público e não somente nos seus interesses pessoais. É assim que pensa o PSOL e a Luciana Genro.

Se você quer apenas especular no mercado de ações, enriquecendo às custas do trabalho dos outros, o PSOL não é o partido pra você.

Se você é um ricaço que pretende sair do Brasil caso Luciana aumente os impostos sobre sua fortuna, então o PSOL não é o partido pra você.

Se você acredita que todo mundo é movido exclusivamente por interesses mesquinhos e egoístas, o PSOL não é o partido pra você.

Se você quer uma legenda de aluguel, para fazer o jogo sujo da política, o PSOL não é o partido pra você.

Se você acha que os gays são cidadãos de segunda categoria, que eles só podem fazer uma união de bens e que o casamente é privilégio dos heterossexuais, então PSOL não é o partido pra você.
Mas se você acha que é possível, com a força extraordinária das nossas ideias, combater o capitalismo, o machismo, o racismo, a homofobia e todas as formas de discriminação, então seja bem vindo. O PSOL é o seu partido e a Luciana é a sua candidata.
Se você acredita que é possível construir um novo mundo socialista, com paz, fraternidade, trabalho, dedicação e amor, então seja bem vindo. O PSOL  é o seu partido e a Luciana é a sua candidata.

Pedimos o seu voto não somente para a Luciana presidente, mas para que você dê um voto de confiança no PSOL. Que vote PSOL de cabo a rabo nestas eleições. São cinco votos, nesta ordem: deputado estadual ou distrital, deputado federal, senador, governador e presidente. Vote na legenda 50 para deputado estadual, distrital e federal. Depois vote 500 para senador e também 50 para governador e presidente. O PSOL é o partido com mais candidatos a governador no Brasil: 26. Isso porque ele procura se consolidar como uma alternativa de esquerda no país, em todos os âmbitos de governo. Para votar na legenda, basta digitar 50 e deixe os outros números vagos. Você estará votando na legenda PSOL para ocupar os cargos do legislativo, defendo projetos e propostas condizentes com as ideias apresentadas aqui. Precisamos eleger uma boa bancada de deputados federais, estaduais e distritais, para termos voz e força para combater todos os felicianos e bolsonaros que aparecerem.

Não existe salvadora da pátria. Não adianta apenas votar e esperar que os eleitos trabalhem por nós. Nós somos as pessoas por quem nós estávamos esperando. Sejamos também nós a mudança que queremos ver no mundo.

O PSOL é um partido que existe para muito além das eleições, defendendo a luta social dos trabalhadores do campo e da cidade, dos indígenas, quilombolas e todos os segmentos que sofrem com a exploração capitalista.


Venha conhecer o PSOL. O partido do socialismo e da liberdade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

As três formas de encarar os desejos

Há basicamente três maneiras de lidar com os desejos: sufocá-los, saciá-los ou sublimá-los. Vamos definir o conceito de desejo e depois falar sobre cada um destes métodos. Desejo é vontade de sentir prazer. Prazer é tudo aquilo que pode ser obtido por meio da excitação dos sentidos.


Sufocar é a tentativa de negação do desejo. Esse sentimento pode ser oriundo de diversos fatores: medo, repulsa, vergonha, pena. Pode também estar relacionado à sensação de incompatibilidade dos desejos com os princípios éticos e compromissos assumidos anteriormente. Uma pessoa em casamento fechado, por exemplo, pode sentir o desejo de se relacionar com uma terceira. No entanto, em função do compromisso assumido com seu cônjuge, decide sufocar o desejo.
Outra maneira de lidar com os desejos é buscando saciá-los. É quando, por exemplo, uma pessoa sente vontade de viajar e viaja, sente vontade de comer torresmo e come, sente vontade de beber cerveja e bebe, sente vontade de transar e transa, sente vontade de se lambuzar e se lambuza. É preciso lembrar, contudo, que os desejos nunca são completamente saciados, pois os prazeres carnais são temporários, passageiros, efêmeros. Os prazeres da carne nos escapam pelo vão dos dedos.
Alguns desejos podem ser saciados sem ofender a princípios éticos, outros não. A alimentação e o sexo, por exemplo, são prazeres que podem ser vivenciados sem ofender a ética, ou seja, sem prejudicar a si, as outras pessoas e o meio ambiente. Mas isso depende do que se come, como se obtém o alimento, com quem se transa e como se recrutou o parceir@ sexual.
Sublimar os desejos é remetê-los a Deus. Da mesma maneira que sublimar a dor é endereçá-la a Deus. Os espíritos mais evoluídos, que estão mais próximos de Deus, conseguem sublimar seus desejos e dores. Basta compreender que as vicissitudes desta existência material são temporárias. Se o desejo sexual vai acabar após o sexo, qual a diferença entre saciá-lo ou não? Existe algum objetivo na prática sexual para além do próprio prazer carnal? A procriação; a troca de energias. Existe algum objetivo em se alimentar? A aquisição de nutrientes essenciais à manutenção da vida. Qual o objetivo de determinado ato, para além do prazer temporário que ele gera? Essa pergunta deve ser feita por qualquer pessoa que almeja o progresso espiritual.

Sublimar os desejos é tarefa difícil para nós, espíritos em fase inicial ou intermediária de evolução. No mundo moderno, os cinco sentidos são estimulados a todo o momento. A indústria do marketing investe bilhões e bilhões de dólares em propaganda para convencer as pessoas a comprar mais e mais. Para isso, ela cria desejos que, na verdade, não temos. Trata-se de uma lógica muito perversa, na qual as pessoas são estimuladas a consumir mercadorias para saciar os seus desejos. E a indústria do marketing está sempre criando novos produtos e novos desejos, para que as pessoas continuem comprando e os capitalistas continuem lucrando. Onde isso vai parar? Ou os recursos naturais vão se esgotar ou as pessoas vão despertar para a necessidade de preservá-los e respeitá-los. Esperamos que a segunda hipótese prevaleça. Mas isso depende de uma mudança de paradigma e de mentalidade. É preciso aprender a contemplar a natureza sem querer apossar-se dela. É preciso vivenciar esta experiência de encarnação no mundo material sem perder a noção de que ela é temporária. É preciso despertar para o fato de que o corpo morre, mas o espírito permanece, que ele segue a sua jornada no caminho da fraternidade, da harmonia e do amor.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina Silva: uma análise pela esquerda

                 A candidata do PSB à presidência, Marina Silva, tem ganhado destaque na mídia e crescido nas pesquisas eleitorais. Apesar do pouco tempo de televisão, restam poucas dúvidas de que ela possui chances reais de vitória. Este é um breve artigo com apontamentos de tendências sobre o caráter político-ideológico de um eventual governo de Marina Silva. Primeiramente, é apresentada a localização da candidata no espectro ideológico e, posteriormente, algumas das potencialidades e riscos de um governo Marina, tendo em vista o conflito de classe no sistema capitalista.

                Marina é uma típica candidata centrista. Isso significa que ela busca a conciliação de classes, ou seja, quer agradar, ao mesmo tempo, a patrões e trabalhadores, ricos e pobres. Quando isso ocorre, o sistema de classes tende a ficar intacto, pois a classe dominante se favorece com essa suposta neutralidade, mantendo-se no controle das relações de trabalho. A candidata em questão não pretende interferir na lei que sustenta o sistema capitalista, que é a propriedade privada dos meios de produção. Ao contrário, acredita que há “capitalistas de mentalidade progressista” (termo usado por ela), entre eles Guilherme Leal, dono da empresa Natura. Ela não percebe, por exemplo, que a riqueza de Leal foi forjada a partir da exploração de milhares de trabalhadores terceirizados, os famosos “consultores da Natura”, que vendem os produtos da empresa e não gozam de quase nenhum direito trabalhista ou proteção social. Parece não se preocupar com a precarização do trabalho produzida por esse modelo pernicioso de negócio.

                Como definir se um candidato é de direita, esquerda ou de centro? Difícil tarefa. Utilizamos aqui a noção de que o governo de direita é favorável à ampliação da propriedade privada dos meios de produção. Neste sentido, defende a privatização das empresas estatais e redução da atuação do Estado na economia. Por trás dessa proposta está a ideia de que o Estado é incompetente, ineficiente e corrupto, invariavelmente; enquanto o empresariado compõe uma casta de pessoas competentes, eficientes, honestas e isentas. O governo de esquerda é aquele que combate a propriedade privada dos meios de produção, seja por meio da estatização das empresas privadas, (sobretudo em setores estratégicos, como energia, infraestrutura, transportes, telecomunicações, abastecimento de água, etc.), seja pela ampliação do provimento de serviços públicos estatais, nas áreas de saúde, educação, cultura, assistência social, entre outros, seja por meio do incentivo ao cooperativismo nos setores de maior concorrência, como alimentação, vestuário, hotelaria, comércio, etc. A ideia é a de que a sociedade pode se organizar sem a exploração de classe, ou seja, sem que uma pessoa lucre com o trabalho de outra.

O governo centrista é aquele que não possui uma posição ideológica estática no que se refere à ampliação ou redução da propriedade privada dos meios de produção, é como um barco que é levado para lá e para cá de acordo com o momento político e a correlação de forças entre trabalhadores e a classe dominante. Este parece ser o caso de Marina Silva. Se, por um lado, o financiamento privado da campanha aponta para um alinhamento com o patronato, o levante de junho, por outro lado, aponta para o reconhecimento do transporte público como um direito de todos, o que favorece a classe trabalhadora. Neste sentido, o governo buscará uma conciliação de classes para se equilibrar no poder.

             Dentro desta mesma lógica, vale fazer uns parênteses para situar o posicionamento ideológico dos outros candidatos à presidência, da esquerda para direita. Luciana Genro (PSOL), Zé Maria (PSTU), Mário Iasi (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) são candidatos de esquerda. Dilma Roussef (PT), Marina Silva (PSB), José Maria Eyamel (PSDC) e Eduardo Jorge (PV) são candidatos centristas. Aécio Neves (PSDB), Levi Fidelix (PRTB) e Pastor Everaldo (PSC)  são candidatos de direita. Como todo processo de classificação, este não é isento de críticas e questionamentos. O projeto político de cada candidato é repleto de nuances e imbricações.

Um eventual governo de Marina Silva apresenta algumas potencialidades, sobretudo do ponto de vista ambiental. O principal motivo da saída de Marina do PT foi a divergência na condução da política ambiental e o atrelamento do governo Lula em relação aos interesses do agronegócio. Desse modo, é esperado que Marina promova alguns avanços na pauta ambiental, como por exemplo o combate ao uso indiscriminado de agrotóxicos e ao desmatamento das florestas e imposição de condicionalidades ao cultivo de plantas transgênicas. Ela deve fortalecer o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), entre outras áreas relacionadas à preservação do meio ambiente. Além disso, deve haver uma análise mais criteriosa dos projetos de grande impacto ambiental, como usinas hidrelétricas, rodovias, etc. A depender da capacidade de mobilização popular, pode haver avanço na demarcação das reservas indígenas, quilombolas e na reforma agrária.

Um governo de Marina Silva também apresentaria alguns riscos e debilidades. Um deles é o conservadorismo do ponto de vista dos costumes. As posições políticas de Marina são influenciadas pela sua visão religiosa. Ela é evangelista da Assembleia de Deus e recebeu o apoio dos fiéis para coleta de assinaturas quando da criação da Rede Sustentabilidade. Há risco de retrocesso no debate sobre legalização da maconha, regulamentação do aborto, direitos da população LGBT, entre outros. Em sua gestão como ministra do Meio Ambiente, ela recebeu críticas por priorizar a relação com ONG’s em detrimento da valorização dos servidores públicos. Além disso, o candidato a vice-presidente em sua chapa, Beto Albuquerque, é ligado ao agronegócio. Seu partido, PSB, apresenta em seus quadros diversos políticos conservadores. Há risco de uma degeneração do governo à direita.

Se Marina ganhar, tanto PT quanto PSDB disputarão o posto de aliado prioritário. Ela invoca o legado político de Lula e de Fernando Henrique. Isso é um ponto negativo, pois a síntese entre um governo de direita e outro de centro pode ser um governo de centro-direita. O tripé da política econômica do PSDB e do PT, que favorece os banqueiros, deve se manter inalterado, quais sejam: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante. Pode haver um ajuste fiscal com arrocho salarial nos primeiros anos do governo. Quanto ao parlamento, procurará conciliar interesses e agradar a gregos e troianos para ter maioria. Não está descartada, no entanto, a possibilidade de uma redução do número de cargos comissionados ocupados em função de negociatas partidárias. Quanto à reforma política, pode haver alguma alteração, mesmo que pontual. A candidata prometeu governar apenas quatro anos e acabar com a reeleição. De modo geral, trata-se de um governo centrista, com possibilidades de avanços em algumas áreas, como o combate ao desmatamento, e retrocesso em outras, como o combate à homofobia, sem alteração substancial no sistema de classes no interior do capitalismo.


Tony Gigliotti, servidor público e militante do PSOL

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Xô show de dança - qual a cultura de quem não tem cultura?

"De acordo com a pesquisa SIPS – IPEA, realizada em 2010, 59,3% dos brasileiros nunca foram ao teatro, circo ou “show de dança”. Trata-se de uma abordagem de pesquisa que denota, por um lado, a preferência por manifestações culturais que privilegiam o distanciamento em palco e platéia e, por outro, a espetacularização do fazer cultural."

Segue abaixo, texto escrito como tarefa do Curso de Formações de Gestores Culturais dos Estados do Nordeste, após módulo sobre políticas setoriais e imersão cultural no Museu da Gente Sergipana, em junho de 2014.
Enunciado: Tendo em vista a discussão sobre públicos da cultura, o contato com diversas linguagens artísticas e com o Museu da Gente Sergipana, faça uma reflexão sobre os desafios que a conquista de públicos coloca para os gestores de cultura.
           
A conquista de público para os equipamentos e apresentações culturais realizadas e incentivas pelo Estado envolvem diversos desafios, tanto do ponto de vista da quantidade quanto da qualidade. O texto de Isaura Botelho e Maria Carolina Vasconcelos Oliveira (Centros Culturais e a formação de novos públicos) enseja diversas reflexões sobre o conceito de manifestação cultural e artística e o significado da palavra público. Neste contexto, busca-se analisar o Museu da Gente Sergipana e suas estratégias de relação com o público.
           Os conceitos de manifestação cultural e de público não são fixos e estanques. Eles são tão dinâmicos quanto a própria cultura. Uma situação emblemática ocorre quando os técnicos dos institutos de pesquisa perguntam às pessoas se elas já foram a um “show de dança”. A grande maioria responde que não. Isso porque elas desconsideram, por exemplo, as danças que ocorrem em sua própria comunidade, como o forró, o frevo ou o maracatu. A expressão “show de dança” remete a uma idéia de distanciamento entre palco e platéia, que não ocorre nestes tipos de dança. Em regra, qualquer pessoa já viu alguém dançar, sendo esta uma das mais espontâneas manifestações culturais, presente em inúmeras etnias. A abordagem da pesquisa, no entanto, faz com que as pessoas se sintam marginalizadas do fazer cultural, quando, na verdade, é o próprio método de pesquisa que valoriza uma manifestação cultural em detrimento de outra.
De acordo com a pesquisa SIPS – IPEA, realizada em 2010, 59,3% dos brasileiros nunca foram ao teatro, circo ou “show de dança”. Trata-se de uma abordagem de pesquisa que denota, por um lado, a preferência por manifestações culturais que privilegiam o distanciamento em palco e platéia e, por outro, a espetacularização do fazer cultural. Os shows e mega-produções são valorizadas em detrimento das manifestações artísticas do cotidiano, como a escolha do figurino ou vestimenta, a representação dos papéis sociais nos diversos contextos de trabalho e lazer ou até mesmo as inovações realizadas ao se selecionar e preparar os alimentos. A própria expressão “show de dança” é reflexo do anglicismo e da preferência pelas expressões culturais européias, especialmente dentro de formatações inglesas e francesas. Desse modo, este tipo de pesquisa acaba colaborando para que os cidadãos mais pobres se sintam marginalizados do fazer político e cultural. Isso porque os seus hábitos e práticas não são reconhecidos enquanto manifestação artística. A pesquisa SIPS – IPEA não perguntou, por exemplo, se a pessoa tem o hábito de ir à feira livre ou de conversar com o seu vizinho. Não seriam estas manifestações culturais tão importantes quanto ir ao teatro ou ao cinema?
            As políticas culturais muitas vezes não conseguem acompanhar o dinamismo do fazer cultural. Com as novas tecnologias de comunicação, novos ritmos, hábitos e práticas surgem e desaparecem com uma rapidez maior do que a capacidade dos gestores culturais de compreendê-las e utilizá-las na formulação das políticas. Um exemplo disso é o uso de redes sociais. Em poucas semanas, milhões de usuários do Orkut migraram para o Facebook, em um verdadeiro movimento de massas. A invenção de aplicativos para celulares também tem causado mudanças importantes nos hábitos das pessoas.
            A atuação do Estado na formação de público tem sido atrelada, historicamente, a uma promoção da cultura erudita e repressão da cultura popular. No Rio de Janeiro, por exemplo, os bailes funk foram proibidos e duramente reprimidos nos últimos anos, por uma suposta ligação com o tráfico de drogas. Projeto de lei do deputado Marcelo Freixo conseguiu reverter a proibição dos bailes. Isso mostra que o Estado ora atua na formação ora na repressão do público. Via de regra, opta por incentivar a formação de público para manifestações artísticas altamente aderentes ao sistema político e econômico vigente, como a música clássica e os museus, que via de regra contam a história a partir da versão dos vencedores, que estão no poder.
            O Museu da Gente Sergipana não está isento destas contradições, embora seja uma instituição que busca agregar novos públicos.          Uma das grandes qualidades do museu é a interatividade. Por meio de diversos mecanismos, a instituição busca aumentar a interação entre o público e o acervo. Um exemplo é a possibilidade de a pessoa gravar a declamação de um cordel e depois postar o vídeo no canal do museu no youtube. Desse modo, o público não é tratado como mero consumidor de cultura, mas sim como ator e fruidor.   
            No museu, chama a atenção a homenagem à Zé do Peixe, ex-funcionário da Marinha, que se tornou muito conhecido por nadar grandes distâncias indicando o caminho para as embarcações que precisavam ingressar no leito do Rio Sergipe, desviando dos bancos de areia. A exposição sobre Zé do Peixe é fruto de seu grande reconhecimento por parte da população local, e tem se tornado um mito em poucos anos após a sua desencarnação. Não se trata de uma homenagem oficialesca, mas de acolher um sentimento vindo do próprio povo, no sentido de manter viva a memória de um de seus cidadãos mais corajosos e emblemáticos.

            O museu também se destaca por agregar em seu espaço apresentações e manifestações da cultura popular sergipana. Trata-se de uma estratégia para tornar o museu mais visitado e reconhecido pela população. Desse modo, a formação de público envolve diversos desafios que vão muito além do número de freqüentadores, passando pelo processo de formação educacional das pessoas e do tipo de hábito cultural que desenvolvem. A cultura não é politicamente neutra. Muito pelo contrário, quando menos fala sobre política é quando mais se fala sobre política. Arte e política são inseparáveis, de modo que linguagens culturais aparentemente neutras podem estar a serviço da manutenção do sistema político tal como ele está colocado.