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domingo, 11 de março de 2018

Sobre as prévias no PSOL: um diálogo com a militância


Este texto fala sobre a proposta de realização de prévias partidárias no PSOL, para escolha de candidato a presidência da república e a outros cargos da eleição majoritária. É muito curioso observar as críticas a esse método de escolha de candidaturas. A crítica mais tradicional é aquela apontada pelo companheiro Pedro Costa Jr, do PSOL-DF: "só servirá pra nos digladiarmos ainda mais". Então é importante nos debruçarmos sobre essa objeção às previas, que me parece ser a mais citada pela direção. De acordo com essa visão, as prévias teriam o condão de acirrar as lutas internas do partido e inflamar os ânimos. As prévias fariam com que os militantes perdessem energia nas disputas internas ao invés de se dedicarem ao convencimento e diálogo com setores externos ao partido. Com isso, as prévias fariam com que nós deixássemos de disputar a sociedade e passássemos a nos dedicar quase exclusivamente às lutas internas, que seriam estéreis. Então eu me pergunto: será que os ânimos já não estão exaltados? Será que nós já não estamos nos digladiando? E mais: será que a insistência da direção em interditar as prévias não seria exatamente um dos principais pontos de divergência dentro da militância? 
O que quero dizer é que, boicotando as prévias, a direção está, na realidade, acirrando ainda mais os ânimos dentro do partido. Na tentativa de evitar o racha, eles estão causando uma cizânia muito maior. O debate do dia 7 de março, entre os pré-candidatos, mostrou muito bem isso: o processo de prévias emergiu como a principal bandeira de campanha de Plininho e outros. Enquanto isso, colocou-se a pecha de que Boulos e a direção do PSOL seiram antidemocráticos, o que não é necessariamente verdade. Ou seja, o boicote às prévias, realizado pela direção, acirrou ainda mais os ânimos dentro do PSOL.
Pois bem, aí vem o outro argumento importantíssimo para dispensar as prévias, também apresentado pelo companheiro Pedro Jr.: não vale a pena “ter prévias pra decidir algo q já tá evidente”. É o argumento de que as prévias seriam desnecessárias porque já estaria evidente que a grande maioria do partido votaria a favor de Guilherme Boulos. Vale lembrar também que ontem, dia 10 de março de 2018, de fato se apresentou uma grande maioria a favor da referida candidatura, por ocasião da Conferência Eleitoral do PSOL realizada em São Paulo.
Eu concordo com o argumento de que, quando há unanimidade na direção sobre uma candidatura, talvez não valha a pena realizar prévias, bastando uma votação simbólica. Eu me lembro que, em uma reunião da Executiva do PSOL-DF, no final de 2017, o ex-presidente nacional do PSOL, Luís, Araújo, disse que, se ao menos 90% da direção do partido concorda com a escolha de um candidato, não seria necessário realizar prévias. Achei a fala dele muito interessante por apontar um valor percentual para esse critério de “escolha evidente”. Ao mesmo tempo, é interessante notar que, na conferência de 10 de março, não se atingiu, nem de longe, esse percentual. Nessa ocasião, 71% dos delegados escolheram Boulos, muito abaixo dos 90% indicados por Luiz Araújo. Acredito que seja necessário estabelecer, com precisão, esse critério, e talvez seja essa uma boa proposta para se apresentar no próximo congresso partidário: qual o percentual razoável de votos no diretório seria suficiente para dispensar a realização de prévias. Sem esse critério previamente estabelecido, o argumento da “vitória evidente” parece ser casuística.
Dessa forma, quero dizer que os dois principais argumentos para se dispensar as prévias, a de que elas acirrariam as lutas internas e a de que a vitória de Boulos era evidente, não se sustentam, na minha opinião. O primeiro não se sustenta porque o boicote às prévias causou uma cizânia muito maior do que aquela se procurava evitar. O argumento da vitória evidente não se sustenta porque não se estabeleceu, previamente, o percentual que configuraria essa vitória evidente, se 90% ou 80% ou 70%. Eu me lembro que, no Congresso Nacional do PSOL, em 2013, a US impôs a pré-candidatura de Randolfe Rodrigues à presidência por meio de uma estreita margem de votos, menos que 55%. Ou seja, o argumento da vitória evidente foi dispensado e a ala majoritária impôs um nome bastante impopular no seio da militância organizada do partido. Mais tarde, o próprio Randolfe reconheceu isso e abriu mão da candidatura, abrindo espaço para Luciana Genro. Isso mostra que argumento da vitória evidente se mostra elástica e casuística dentro do partido, demonstrando a necessidade de se estabelecer, o mais rápido possível, qual seria o percentual razoável de votos para se dispensar as prévias.
Por fim, quero dizer que, se houvesse prévias no PSOL, provavelmente votaria exatamente naquela candidatura que foi escolhida pela direção: Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, sobretudo após o debate do dia 7, que, na minha opinião, acabou mostrando um pouco do ranço anti-petista que ainda paira sobre uma parcela da militância. Concordo que o vídeo de Lula na Conferência do dia 3 de março era dispensável, e isso mostra que não é seguro deixar a comunicação de campanha unicamente nas mãos da Fora do Eixo e Mídia Ninja. Contudo, a candidatura Boulos-Guajajara parece representar uma aposta (arriscada, diga-se de passagem) na aliança do PSOL com dois segmentos importantíssimos do movimento social: movimento dos trabalhadores sem-teto e movimento indígena. São segmentos que, que há bastante tempo, descolaram-se do petismo e tiveram a coragem de fazer as críticas necessárias ao governo do PT. Além disso, entendo que o golpe de 2016 representou uma importante mudança na conjuntura política do país, que exige de nós também uma mudança de postura, diante da tal onda conservadora.
Acredito que as prévias fortaleceriam a democracia partidária e permitiram um debate mais aberto e franco sobre as candidaturas. As prévias são uma oportunidade para se propor ideias para o programa de governo e melhorar o diálogo com a sociedade. O debate entre os pré-candidatos serviria como uma espécie de treinamento para as difíceis disputas que ocorrem durante a campanha. Existe a ideia também de se realizar prévias amplas, com a participação de não-filiados, como ocorre dos Estados Unidos, o que deve ser feito de maneira criteriosa, para evitar fraudes. Outra proposta é fazer prévias com pesos diferentes para os votos de filiados em relação ao de não-filiados. Prévias seriam desgastantes? Talvez, mas a democracia exige de nós um exercício diário de diálogo e compreensão do outro. Uma candidat@ escolhida por prévias teria muito mais legitimidade para falar em nome do partido. Fica a dica para a próxima eleição.

sábado, 28 de outubro de 2017

Ensaio sobre o assalto

Hoje decidi publicar um texto que escrevi a mais de dois anos atrás, após ser assaltado.

Salvador, 1 de junho de 2015

Na semana passada, fui assaltado pela primeira vez. Quatro dias depois, fui assaltado pela segunda vez. Na primeira, o assaltante empunhava um revolver, na segunda, uma faca.

Quando uma pessoa é assaltada, não é somente a sua vida e sua integridade física que são colocadas a prova, mas também as suas mais profundas convicções e valores. Num assalto, somos convidados a entregar os nossos pertences pessoais sob a ameaça de um tiro, de uma facada ou algo do tipo.
Foi um choque! Por mais já tivesse tentado me preparar psicologicamente para um assalto, isso me chocou. Eu nunca tinha passado por algo parecido: uma ameaça tão direta à minha vida. Isso me levou a pensar que a matéria-prima principal do assaltante é o medo. Pensei, inclusive, que ele não tinha nenhuma fonte de legitimação para aquele ato. Por que assaltar? Por que ameaçar a vida de alguém daquela maneira? Depois pensei que havia sim fontes de legitimação: o estado de necessidade. Aliás, isso está estabelecido na própria legislação penal (artigo 23), como causa excludente de ilicitude. Quando uma pessoa rouba comida porque está com fome, não pode, de acordo com a lei, ser preso ou criminalizado, pois foi a extrema necessidade que o levou a cometer aquele ato.

Além disso, as instituições sociais também nos assaltam cotidianamente, sobretudo o Estado e o patrão. O primeiro nos obriga a pagar impostos sob pena de sermos presos, pois sonegação é crime no Brasil, o segundo nos subordina e nos explora, amparado pelas leis vigentes neste mesmo Estado. A propriedade privada e o Estado andam juntos, e isso está no âmago do sistema capitalista. Eles nos roubam cotidianamente. E muitos estão tão acostumados que nem percebem ou nem se incomodam, ou às vezes até se ofendem e se incomodam, mas desistiram de lutar coletivamente. E então passam a lutar individualmente contra o capitalista, tornando-se mais um capitalista. Paradoxalmente, aqueles que lutam individualmente contra o capitalismo, tornam-se capitalistas. Aquele que faz tudo para enriquecer e sair do jugo do patrão e do Estado, acaba se tornando um novo patrão ou burocrata. A única saída, portanto, é lutar coletivamente contra o capitalismo, defendendo a abolição da propriedade privada e dando início a um novo regime político, baseado na solidariedade e no amor.
Segue um comparativo entre as três espécies de assalto: a realizada pelo Estado, pelo patrão e pelo marginal.


Estado
Patrão
Marginal
Fonte de legitimação
A constituição e as leis
O contrato de trabalho e a assunção dos riscos
A necessidade
Como ele faz para convencer você a fazer o que ele quer que você faça?
Educação
Oferta de salário e vantagens.
Pedido
O que ele faz se você se recusar a fazer o que ele quer que você faça?
Ameaça de prisão
Ameaça de demissão
Ameaça à integridade física.

                Existe uma relação direta entre a pobreza e a violência. Muitos dos assaltantes já foram pedintes e/ou moradores de rua. Tanto é assim que o segundo assaltante, após pedir o meu celular, pediu 10 centavos. 10 CENTAVOS!!! Ele estava tão acostumado a pedir 10 centavos enquanto mendigo que, ao se tornar assaltante, apontando uma faca nos outros, nem mudou o discurso, que já estava por demais impregnado: “Dê qualquer coisa: 10 centavos.” Diante de uma situação como essa, acho que a delegacia não é o melhor lugar para se fazer um boletim de ocorrência. Devo relatar o caso ao Centro de Referência em Assistência Social (CRAS)
Além disso, há muitas pessoas que também roubam as outras sem apontar uma arma, por meio da corrupção, por exemplo. Não se está aqui a justificar a violência e sim em melhor compreendê-la para melhor combatê-la. O combate à violência urbana deve estar aliada ao combate à propriedade privada e ao Estado. Todas as formas de opressão e preconceito devem ser abolidas. Mas antes de combater os vícios dos outros, temos que combater os nossos próprios. Antes de combater o capitalismo que existe nos outros, temos que combater o capitalista que existe dentro de nós. Antes de combater o Estado, temos que combater o ditadorzinho que existe dentro de nós. Antes de tirar o cisco que está no olho dos outros, temos que tirar a trava que está em nosso próprio olho. Assim poderemos enxergar melhor o cisco que está no olho do outro.
                Devo confessar que, em certos momentos, senti desolação pelo ocorrido e até raiva dos assaltantes. Mas, depois de colocar as ideias no lugar, devo dizer que não arredo pé em nenhum centímetro das minhas convicções espirituais e políticas.

                Apresento, portanto, algumas ideias da esquerda e dos direitos humanos sobre como combater a violência urbana:

1)      Redução drástica das desigualdades sociais e melhoria de distribuição da renda e da propriedade;
2)      Melhoria das políticas sociais: educação, assistência social, saúde, cultura, etc.
3)      Combate intransigente ao desemprego. É inadmissível que, em uma sociedade, existam pessoas que procuram emprego e não encontrem. É preciso melhorar a quantidade e a oferta de empregos. A criação de empregos públicos é uma das formas de o Estado combater o desemprego. O incentivo ao cooperativismo é outra forma de combater o desemprego.
4)      Liberalização e regulamentação de todas as drogas. A política de guerra às drogas é a política pública mais fracassada de toda a história da humanidade. Precisamos de uma política pública focada na ampliação das liberdades e não na restrição. Assim, a atuação do Estado deve ser focada em dar oportunidade de saída das drogas. Há muitas pessoas que querem largar o vício das drogas e não tem um tratamento adequado. Imagine se o dinheiro gasto na repressão e nas prisões fosse usado em tratamentos psicológicos, médicos e de assistência social para aqueles que querem se tratar e largar o vício?

Ao mesmo tempo, sinto que estão reforçadas e revigoradas as minhas convicções espirituais. Como diria Mahatma Gandhi: “os poderosos podem prender e vilipendiar o seu corpo, mas jamais aprisionarão a sua alma”. Nosso espírito é irremediavelmente livre e imortal. Somos espíritos imateriais e imortais, temporariamente encarnados em um corpo material, em um invólucro biológico que pode ser perdido a qualquer momento. O corpo é uma espécie de prisão-escola. Temos muitas coisas a aprender enquanto estamos encarnados, mas não podemos nos esquecer de que este corpo é uma prisão, que limita a nossa capacidade de deslocamento, além de nos impor uma série de necessidades: comer, dormir, etc.
Estamos em um caminho de progresso espiritual e nos tornamos cada vez mais livres, na medida em que compreendemos as leis de Deus e as aplicamos em nossas vidas. A primeira delas é a lei do amor e do perdão. Fazer o bem sem olhar a quem, perdoar as ofensas e seguir em paz, de cabeça erguida, sem nenhum sentimento de culpa, inveja, pena ou medo.
                As portas do futuro estão abertas para nós. Cabe a nós fazermos com que este futuro seja repleto de amor, paz, fraternidade, igualdade e liberdade.

Diante da crise, eu aposto todas as minhas fichas no amor.
A Deus, a você, a mim, à humanidade, à natureza...
O perdão desbloqueia nossas vias espirituais
E deixa o amor fluir tranquilamente.
“Deixe-me dizer, sem medo de parecer ridículo,
Que o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor.” (Che Guevara)

“Não se combate o ódio com o ódio. O ódio só pode ser combatido com o amor.” O amor é a melhor resposta que podemos dar aos assaltantes, aos patrões e aos ditadores. É a melhor forma de dizer que eles não venceram, que nós continuamos lutando por um mundo melhor. E que não desistiremos nunca!


“Os idealistas são incorrigíveis. Se lhe roubam o céu, eles fazem do inferno o seu céu.” Nietzsche

segunda-feira, 21 de março de 2016

De junho de 2013 a março de 2016: o povo nas ruas por mais direitos

         Os protestos do dia 13 de março (domingo) mostraram a indignação do povo diante da corrupção e da crise econômica. Embora a maior parte das lideranças do movimento sejam conservadores, as vaias a Aécio Neves e Geraldo Alckimin, na Avenida Paulista, mostraram que a velha direita e os partidos tradicionais estão com dificuldades para se firmarem enquanto alternativa ao PT. O que aconteceu entre junho de 2013 e março de 2016?



         Os protestos de junho de 2013 tiveram um caráter anti-sistema. A indignação com os aumentos das passagens de transporte público, aliados aos gastos exagerados com as obras da Copa e a corrupção, fizeram com que milhões saíssem às ruas para protestar. As manifestações foram inicialmente convocadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), que defende o transporte público enquanto direito de todos. Contudo, os protestos extrapolaram em muito o MPL, agregando porções da classe média, movimento estudantil, etc. As pautas se tornaram difusas. Reivindicava-se tudo e nada ao mesmo tempo. O movimento ficou sem foco. A reivindicação imediata foi alcançada: após semanas de manifestações, os aumentos das passagens de ônibus foram suspensas na maioria das cidades. Alkimin e Fernando Haddad, governador e prefeito de São Paulo, por exemplo, tiveram de torcer o nariz e cancelar o aumento do transporte público, ao menos naquele momento.
         A partir dessa primeira onda de protestos, o movimento de dispersou e se dividiu. Parte da ala anarquista passou a conformar os Black Blocks, que incluíam a ação direta como uma de suas táticas. Buscava-se combater diretamente alguns dos símbolos do capitalismo e do domínio estatal. Em alguns atos, houve depredação do patrimônio de empresas e órgãos públicos. O movimento foi duramente reprimido pela polícia militar, houve um forte movimento de criminalização por parte dos governos, que culminou, recentemente, na aprovação da famigerada Lei Anti-Terrorismo. Em um episódio emblemático, em um protesto no Rio de Janeiro, no dia 06 de fevereiro de 2014, o lançamento de um rojão causou a morte acidental de um cinegrafista da TV Band, Santiago Andrade. Era o que a mídia burguesa precisava para reforçar a campanha difamatória contra os Black Blocks. Além disso, a Rede Globo tentou convencer a população de que havia um vínculo entre os Black Blocks e o deputado estadual Marcelo Freixo, do PSOL, uma das maiores lideranças da esquerda brasileira. Sob o calor das emoções, dois ativistas foram acusados de homicídio triplamente qualificado: Fabio Raposo Barbosa e Caio Silva Souza. Eles ficaram encarcerados durante mais de um ano, até que a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, por unanimidade, desclassificou a denúncia contra os manifestantes e determinou sua soltura imediata.
A campanha difamatória obrigou o PSOL a responder, esclarecendo não haver vínculo entre o partido e os Black Blocks. PSTU e PCB também buscaram se diferenciar do grupo anarquista. Com isso, a mídia burguesa apostou, mais uma vez, na divisão do movimento anti-capitalista: socialistas de um lado e anarquistas de outro. O movimento socialista também já estava dividido conforme a tradição: reformistas e revolucionários. Boa parcela dos reformistas continuou apoiando o governo Dilma, contra o avanço da direita, enquanto os revolucionários buscaram se diferenciar do PT e de sua estratégia de conciliação de classe.
         A direita também tentou se organizar e se fortalecer no movimento de massas a partir de junho de 2013. Baseado nas ideias de combate a corrupção e rechaço aos programas de transferência de renda do governo, como o Bolsa Família, alguns grupos se formaram, como o “Vem pra rua” e Movimento Brasil Livre (MBL) e “Revoltados online”. Alas mais a direita chegam a pedir intervenção militar.
         Diferentemente dos Black Blocks, os grupos de direita adotaram a via pacífica nas manifestações. Isso parece ter sido decisivo para a massificação dos protestos por ela convocados, aliado ao apoio da mídia burguesa. Após os protestos de junho de 2013, a presidenta Dilma, em pronunciamento oficial, disse que somente manifestações “pacíficas e ordeiras” seriam admitidas. Ironicamente, é exatamente esse tipo de manifestação pacifista que agora afunila o seu foco e se volta contra o seu governo.
         Historicamente, as pautas negativas possuem muito mais probabilidade de se concretizarem que as pautas positivas. Participei dos protestos do “Fora Thimoty” e “Fora Arruda” em Brasília, nos anos de 2008 a 2010, e pude perceber essa tendência. As pessoas tem maior propensão a se mobilizarem contra algo do que a favor de algo. É mais fácil entrar em consenso de que o sistema político atual está falido do que chegar a um acordo sobre qual sistema defendemos para substitui-lo. Isso talvez tenha relação com o estágio de desenvolvimento espiritual em que se encontra o globo terrestre. Contudo, pode ser irresponsável protestar contra algo ou alguém sem propor algo ou alguém melhor no lugar.
         Nesse interim, duas figuras do Poder Judiciário apareceram, ao longo do processo de combate à corrupção, enquanto Salvadores da Pátria. Primeiramente Joaquim Barbosa, que protagonizou o julgamento do Mensalão, no STF, e mais recentemente o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo julgamento dos processos relativos à Operação Lava Jato na primeira instância. As instâncias de fiscalização, investigação, controle e julgamento passaram a ter preponderância na vida nacional, protagonizando os principais noticiários com operações espetaculosas de busca e apreensão, prisões preventivas e delações premiadas de políticos e empresários, grampos telefônicos e vazamento de informações sigilosas. Um prato cheio para a mídia sensacionalista. Na esteira da insatisfação popular com a crise econômica e a corrupção, a Polícia Federal, Ministério Público e Magistratura ganharam preponderância e se sobrepuseram ao Executivo e até mesmo ao Legislativo.
         No dia 16 de março, no entanto, Sérgio Moro cruzou, efetivamente, o limite que separa o Estado de Direito do Estado de Exceção. Ao determinar o vazamento de conversas telefônicas da presidenta e do ex-presidente  Lula, o juiz de primeira instância ultrapassou todos os limites, atuando como um xerife a serviço da oposição de direita, que possui as melhores condições de capitalizar o desgaste do governo Dilma. Após a nomeação de Lula para ocupar a Chefia da Casa Civil, Moro decidiu se vingar e divulgar ilegalmente as escutas telefônicas. O direito à privacidade e presunção de inocência foram escandalosamente violados.
         Com isso, o cenário político está em aberto. Se a presidente Dilma não conseguir se manter no governo, algumas possiblidades estão colocadas: a renúncia ou o impeachment, com ascensão de Michel Temer ao poder; cassação da chapa Dilma & Temer pelo TSE, que geraria eleições antecipadas; ou golpe militar, que seria um retrocesso sem precedentes para a democracia e as liberdades civil.
         A conjuntura pede a unificação da esquerda brasileira sob novas bases, com ética e confiança mútua. Isso inclui um diálogo maior entre os partidos de esquerda, com independência de classe, e também com o movimento anarquista e outros movimentos sociais, buscando-se formar uma frente comum de luta capaz impulsionar a nossa pauta de reivindicações, que inclui: reforma política, reforma agrária, reforma urbana, reforma tributária, auditoria de das dívidas públicas, demarcação de reservas indígenas, reestatização de empresas, apoio ao cooperativismo popular, políticas culturais contra-hegemônicas, defesa dos direitos humanos, respeito às diversidades sexuais, raciais, entre outros.

Referências:

quarta-feira, 18 de março de 2015

Socialismo: entre a realidade e o sonho

Muitas vezes, é mais difícil mudar o sonho do que a realidade. Para que o socialismo se torne realidade, é preciso que os trabalhadores renunciem ao sonho de se tornarem patrões, que os pobres renunciem ao sonho de se tornarem ricos. Nisso consiste o grande desafio. Mudar a visão de que é mais fácil ganhar na loteria do que ter um governo comprometido com os trabalhadores.

Para aqueles que vêem o socialismo somente a partir do materialismo têm dificuldade para entender a dimensão do sonho. O sonho faz parte das nossas vidas, rompendo a toda hora a fronteira do possível. A esperança de melhora e a fé no futuro é o que move as pessoas. Para o marxismo, adquirir consciência de classe é uma etapa fundamental para que os trabalhadores pudessem chegar ao poder, passando a enfrentar os interesses da burguesia. O que não se previa é que os trabalhadores teriam tanta dificuldade em adquirir consciência de classe. Não se previa que a burguesia teria tanta capacidade de exportar os seus costumes e valores para a classe trabalhadora, não como realidade, mas como sonho, que pode ser mais poderoso que a realidade.


Os anúncios publicitários vendem os sonhos. As casas lotéricas vendem o sonho de se ter dinheiro para realizar os sonhos. O glamour, o requinte, a sofisticação, o luxo e o brilho ainda encantam grande parte da classe trabalhadora. Sem desfazer a ilusão nas coisas materiais não é possível avançarmos para o socialismo. "Quanto mais brilha a mercadoria, mais opaco se torna o ser humano.", como diria Marx. 


O ganho de consciência de classe ainda não ocorreu de forma generalizada. A maioria dos trabalhadores não se enxergam enquanto trabalhadores, mas como patrões que estão trabalhando e sendo explorados como que por um acidente do destino. Acidente que será desfeito tão logo eles possam enriquecer materialmente. É por isso que Marx alerta, mais adiante, que "os valores dominantes na sociedade são os valores da classe dominante." De fato, a classe do dominante, que detém o controle dos meios de comunicação de massa, continuam com uma espantosa capacidade de inculcar nos trabalhadores o desejo de riqueza, poder, glamour, luxo, prazeres carnais, do ócio, da competição, do ócio, etc. Evidentemente, eles contam com a colaboração das pessoas que se deixam iludir.

Desfazer o nó do novelo é criar uma consciência coletiva contra-hegemônica, com pessoas capazes de liderar pelo exemplo. De fato, o melhor que temos a oferecer ao outro não é o nosso julgamento, mas o nosso exemplo.

Não se trata de confundir o sonho com a realidade. Os marqueteiros investem nessa confusão. Trata-se de conhecer a realidade e de conhecer os sonhos. Trata-se de reconhecer a situação de miséria, exploração e injustiça em que se encontram os trabalhadores do mundo para que possamos traçar um projeto/sonho de mudança dessa realidade. O projeto/sonho de mudança que a burguesia oferece é o sonho de riqueza. Eles querem que a gente desista de salvar o mundo e lutemos para salvar a nós próprios, em prejuízo de todos os outros. Querem substituir o "salvemos o mundo" pelo "salve-se quem puder." Nós achamos que não faz sentido acender uma luz dentro do nosso quarto e deixar que o resto da humanidade pereça na escuridão. Também achamos que nenhuma luz pode ser acesa em uma casa sem o consentimento do seu morador. O socialismo não deve ser imposto enquanto uma ordem para crer.

Para destruirmos o capitalismo, precisamos mudar os sonhos dos trabalhadores. Ao invés de sonhar com a riqueza e o ócio, eles podem sonhar com um mundo melhor para todos, em que o trabalho seja justamente distribuído e realizado. Sem dúvida, no sistema socialista, poderá haver uma grande redução na jornada de trabalho e um aumento na qualidade de vida das pessoas.

Kant já dizia: "Age de tal modo que sua ação possa se converter em lei universal". Ora, não é possível que todos sejam patrões, pois faltariam trabalhadores. Mas é possível que todos sejam trabalhadores, pois o domínio exercido pelos patrões é desnecessário. A partir da tomada de consciência, as pessoas poderão realizar o seu trabalho e cumprir a sua missão sem sofrer com as ameaças e chantagens dos patrões.


Resgatar a dimensão do sonho e viver esse sonho desde já, por meio do exemplo. Essa é a missão e o projeto do militante socialista.

Resgatar o socialismo no seu caráter ético, dos valores, dos hábitos e costumes. Esse é caminho para chegar ao socialismo sem passarmos pela violência e pela ditadura.
Resgatar a dimensão espiritual do socialismo, enquanto um plano de progresso na grande marcha humanidade. E que este projeto potencialize as liberdades individuais, em sintonia com a igualdade e a fraternidade.

"Nós estamos pre-destinados ao socialismo. E temos que trabalhar por ele."

A profecia e o trabalho são indissociáveis.