terça-feira, 10 de junho de 2014

Por que não protestaram antes??? Uma resposta sincera.

Com essa onda de protestos anti-copa, algumas pessoas estão se perguntando: Se vocês sabiam que o Brasil sediaria a copa, porque não protestaram antes?
Primeiro, os movimentos sociais e os comitês populares da copa já vêm criticando as violações de direitos ocasionadas pelos grandes eventos há muito tempo.
Segundo: nós sabíamos que o Brasil ia sediar a copa. Mas não sabíamos que:
- Essa seria a copa mais cara da história;
- Que o Brasil ia gastar mais nessa copa, do que foi gasto nos últimos três mundiais somados.
- Não sabíamos que o Brasil seria entregue de mão beijada para os cartolas da FIFA e que o Congresso Nacional aprovaria uma lei para privilegiar a entidade.
- Que as pessoas seriam proibidas de transitar num raio de 2 Km ao redor dos estádios. Onde fica a liberdade de ir e vir?
- Que os comerciantes seriam proibidos de chegar perto dos estádios para trabalhar.
- Não sabíamos que mais de 250 mil pessoas seriam expulsas de suas casas para dar lugar às obras da copa. Isso nós não sabíamos.
- Não sabíamos que as empreiteiras lucrariam tanto com a copa, enquanto os trabalhadores seriam tão castigados.
- Não sabíamos que doze trabalhadores morreriam na construção dos estádios.
É por nos revoltar contra tudo isso que nós estamos aqui. Pra dizer que o povo não é idiota e que não vamos aceitar tudo isso calados.
Reivindicamos uma auditoria completa dos gastos da copa e responsabilização dos empresários e políticos corruptos.

Queremos justiça. Queremos dignidade. Queremos a convocação de uma nova Assembléia Constituinte, livre e democrática, pra mudar profundamente este sistema corrupto e falido.

sábado, 31 de maio de 2014

O que é uma morte tranquila?


“O envelhecimento destrói a juventude,
a doença destrói a saúde,
a degeneração da vida destrói excelentes atributos
e a morte destrói a vida.
Mesmo que você seja um excelente corredor, não poderá correr da morte.
A chegada da morte não poderá ser impedida com suas riquezas,
nem com passes de mágica,
nem recitando mantras
 e nem mesmo com remédios.
Portanto, é sensato preparar-se para a morte.”
Dalai Lama
               
O envelhecimento e a morte são tabus na sociedade moderna. Há pessoas que se ofendem com uma simples pergunta de “quantos anos você tem”. Há pessoas que se desesperam só em pensar que vão morrer. Não deveria ser assim. O envelhecimento e a morte são processos naturais, orgânicos. Evitar falar sobre eles não significa que você poderá escapar desse fenômeno. E se não podemos evitar a morte, é prudente preparar-se para ela, como diria Dalai Lama.

                Nosso corpo físico é como uma flor, que desabrocha, chega ao seu nível de pleno esplendor para logo depois começar a murchar e depois morrer. Essa é uma verdade inescapável. Mas há flores que são arrancadas mais cedo, quando ainda estão jovens. Certamente quem as arranca deseja presentear alguém, e inspirá-lo com a beleza que vem das flores mais lindas. Quem vê a flor sendo arrancada, talvez não entenda as intenções maiores que estão por trás daquele ato, mas certamente elas existem.

                Então, se o envelhecimento e a morte são tão certos quanto dois mais dois são quatro, devemos nos preparar. Há pessoas que até mesmo idealizam o que seria uma morte tranqüila: morrer dormindo, sem dor, quando já se está com 85 anos. Isso é uma morte tranqüila, dizem. Acredito que isso seja um engano. Pode ser que uma pessoa teve todo tempo do mundo para se preparar para morte, mas não o fez. O que determina uma morte tranqüila não é a idade ou a ausência de dor. O que faz uma morte ser tranqüila é a paz interior daquele que parte. É entender que esta vida é apenas uma etapa, inserida em uma longa jornada espiritual.

                E como adquirir esta paz interior?

                O único caminho é o desapego das coisas materiais e dos entes queridos. É reconhecer e valorizar o auxílio que os amigos e parentes lhe dão, sem se apaixonar-se por eles, sem se tornar emocionalmente dependente deles.

                É não ter nenhuma dívida para cobrar e nem para pagar. Não basta perdoar ao outro. Não basta pedir o perdão de Deus. É preciso perdoar a si mesmo. Para isso, é preciso reconhecer os seus erros e suas imperfeições. Dalai Lama dizia: “É melhor encontrar um defeito em você do que dezenas nos outros. Porque os seus você pode mudar.” Para encontrar um defeito em você, é necessário fazer uma profunda e contínua reflexão sobre os seus atos e palavras, sobre como eles afetam os outros, como eles impactam nos direitos, na dignidade e na auto-estima do outro.

                Uma morte tranqüila é aquela em que não se carregam dívidas. E a dívida é sempre uma relação bilateral. Não é só o devedor que se prejudica com a dívida, mas também o credor. Há pessoas tão convencidas de que o outro lhe deve alguma coisa que o fica perseguindo e obsediando não somente nesta vida, mas também após a desencarnação. Da mesma maneira, há pessoas que levam para outras vidas as culpas que desenvolveram em encarnações anteriores.

                Outro elemento importante é confiar nas leis de Deus. É saber que nada acontece na nossa vida por um acaso. Não que Deus tenha escrito a história de cada um e que somos meras marionetes das intenções divinas. Não! Não é Deus que atribui indiscriminadamente intenções nas coisas que acontecem em nossas vidas. Somos nós que atribuímos essas intencionalidades. Por exemplo, quando você está andando na rua, pode tropeçar em uma pedra e se desequilibrar. Aí uma série de coisas podem ocorrer a partir deste fato. Você pode se irritar com o governo, que não cuida da calçada. Pode se irritar com a pessoa que deixou a pedra ali. Pode se irritar com o agente público que teria a missão de cuidar da calçada e não cuidou. Você pode se irritar com Deus, que supostamente não deveria deixar que isso acontecesse. Você pode se irritar consigo mesmo, pensando que o acaso te atrapalha e o azar sempre te persegue. Você pode ainda não se irritar, tirar tranquilamente a pedra do caminho para evitar que outras pessoas se desequilibram e caiam. Você pode ainda agradecer a Deus por evitar que você caísse, apesar de ter se desequilibrado. Pode ainda agradecer a Deus por te dar a chance de realizar a boa ação de tirar a pedra do caminho.

                Repare que, em todas estas situações, não foi Deus quem deu um sentido para aquela eventualidade, foi você. E se você pode extrair o lado bom das coisas ruins, então isso é o mais prudente a fazer.

                Deus é o criador das leis naturais e morais, que são auto-aplicáveis. Não é Deus que faz um objeto cair no chão quando ele é solto no ar. Mas é Deus quem criou a lei da gravitação universal, por ser Deus a causa primeira de todas as coisas. Não é Deus que faz com que as suas boas ações retornem pra você, nem é Deus que te pune pelas suas más ações. Mas é Deus o criador da lei do Karma, que se aplica indistintamente a todos os espíritos, encarnados e desencarnados. A lei do Karma pode ser assim resumida: aquilo que você faz ou pensa de ruim, retorna para você; aquilo que você faz ou pensa de bom retorna para você.

                Isso é mais fácil de entender quando analisamos as nossas emoções e sentimentos puros: a raiva, o medo, a alegria, o amor. A raiva só é ruim para quem tem. O medo afeta quem o está sentindo. A alegria é boa para quem sente. O amor sincero ao outro enche os nossos corações de alegria. Não somente os sentimentos, emoções e pensamentos são reflexivos, mas também os nossos atos e palavras. Os atos e palavras nada mais são que espécies de irradiações dos nossos pensamentos. Uma pessoa muda não pode falar com palavras, mas fala com gestos, com o olhar, com o semblante. Uma pessoa tetraplérgica não pode realizar uma série de atos, mas pode realizar outros, com os movimentos da face, como falar. Os espíritos desencarnados, sem o auxílio de médiuns, não podem falar e fazer, mas podem irradiar energias, transmitir pensamentos. Estamos o tempo todo suscetíveis à influência destes pensamentos e irradiações.

Pessoas encarnadas também irradiam energias e vibrações. Isso pode se dar de maneira mais sutil ou mais ostensiva. A palavra é mais ostensiva que o olhar. E os atos são mais ostensivos que as palavras.

Na figura, é apresentada esquematicamente a gradação das irradiações espirituais, da mais sutil para a mais ostensiva. Isso não significa, necessariamente, que a irradiação de maior impacto físico serão necessariamente as mais construtivas ou mais destrutivas. Quantas vezes já ouvimos palavras que soaram como verdadeiras cacetadas? Ou um olhar raivoso, que prenuncia uma grande guerra? Ou um olhar capaz de transmitir toneladas de amor, paz e compreensão? O ato mais ostensivo é aquele que gera mais efeitos físicos, mas não significa que ela gera mais efeitos emocionais ou espirituais.
                
Em qualquer caso, a lei do Karma opera. As emoções e sentimentos realizam movimento pendular. O bem que se faz ao outro vai e volta. O mal que se faz ao outro vai e volta. Um momento de prazer intenso prenuncia o momento seguinte, de abstinência, de ausência de prazer, de dor. Tudo tende ao equilíbrio.

Deus não aplica a lei do karma de maneira personalista, parcial, discriminatória. Ao contrário, ele criou a lei do Karma da mesma maneira que criou a lei da gravitação universal: auto-aplicável, onipresente, universal. Assim, para que obtenha paz interior, não basta pedir a Deus, é necessário conhecer as leis morais e aplicá-las na sua vida. Para isso, é necessário disciplinar a mente, de modo que aprendamos a emitir somente as boas irradiações. Evidentemente, não é tarefa fácil. Vivemos em um mundo habitado por muitos espíritos com visão mercantil, capitalista, que acreditam que tudo está baseado na troca. Troca de sentimentos, de sensações, de favores, de dinheiro. Acreditam, dessa forma, que só devem fazer o bem para quem lhes faz o bem, e que devem ignorar aquelas que não lhes fazem o bem e que devem amaldiçoar aquelas que lhe fazem o mal. Das duas uma, ou ignoram a lei do Karma ou não a aplicam em suas vidas. Jesus discorreu brilhantemente sobre esta questão: “Aprendestes que foi dito: ‘Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. - Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?’” (S. MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47.)


“Nada mais perigoso que um bom conselho acompanhado de um mal exemplo.” Se entendemos a lei do karma, precisamos fazer todo o possível para aplicá-lo em nossa vida. E isso necessita, muitas vezes, de uma mudança de vida.

Uma morte tranqüila passa necessariamente por uma vida tranqüila. A morte do corpo físico é, na verdade, a desencarnação. O espírito é despojado do corpo e continua a sua longa jornada. Quando você acorda, pense se existe algo que você não poderia deixar de fazer antes de desencarnar. Pense se aquilo é realmente necessário, pense se não se trata de coisas que só vão acionar o seu ego, sua vaidade e seus prazeres carnais. Essas coisas são supérfluas.

“Há apenas dois caminhos para o ego: ou ele está satisfeito, ou ele é insaciável.”

Se você tem dívidas a pagar, pense porque ainda não as quitou, ou pense se você não pode se perdoar. A dívida oriunda do financiamento de um imóvel, por exemplo, pode ser paga por outras pessoas após sua desencarnação. Ou se pode devolver o imóvel. Não se preocupe com ela. Procure estar em dia com as dívidas que você contrai e que você considera justas. Se você está em dia com o financiamento do seu imóvel, então você não tem nenhuma conta a pagar, pelo menos até aquele momento.

Por outro lado, se uma pessoa tem uma dívida com você, talvez seja o momento de perdoar, ou pelo menos o momento de se tranqüilizar diante da possibilidade de um calote. Se você emprestou, é porque tinha o que emprestar. Você não emprestaria algo que você mesmo está usando. Se emprestou, é porque aquilo era, de alguma maneira, supérfluo para você, pelo menos naquele momento. Perdoe o outro pela possibilidade de dar um calote. Perdoe-se a si mesmo por se arriscar a levar um calote, no momento em que emprestou. Logo perceberá que a própria dívida pode ser perdoada.

Recapitulando, para ter uma morte tranqüila é necessário ter uma vida tranqüila. Para ter uma vida tranqüila, é preciso conhecer a lei do karma, aplicá-la na sua vida, perdoar a tudo, a todos e principalmente a si mesmo, desapegar-se de todos os bens materiais que você tem e também daqueles que almeja possuir e desapegar-se emocionalmente de seus parentes e amigos, pois eles vieram para complementar a sua felicidade e não são a causa fundamental de sua vida. O propósito da vida é conectar-se com Deus, a partir de sua paz interior, da disciplina da mente, do contato franco e sincero com o divino, que transparece no contato franco e sincero com o outro.


Martinho Lutero: “Você não pode impedir que um pássaro pouse na sua cabeça, mas pode impedir que ele faça um ninho.”

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dilemas da política cultural brasileira

Segue abaixo, texto sobre política cultural, escrito como atividade de avaliação do 2ª módulo do Curso de Formação de Gestores Culturais, que estou cursando.

Descreva, suscintamente, o que você considera como sendo os dilemas das políticas culturais no Brasil contemporâneo.


As políticas culturais brasileiras deparam-se diante de alguns dilemas, correspondendo a clivagens que expressam tensões sociais . Neste texto, abordaremos algumas delas: a tensão entre cultura como direito social e cultura como um negócio privado; a tensão entre federalização e municipalização e a tensão entre padronização dos serviços e respeito à diversidade cultural.

O principal dilema das políticas culturais brasileiras é como é por quem os serviços  culturais serão prestados. Na Constituição, reconhece-se que a cultura é direito de todos, sendo que o Estado tem o dever de garantir o pleno acesso aos bens e serviços culturais aos seus cidadãos. Apesar disso, a maior parte da produção cultural fica a cargo de entidades privadas, cujo principal objetivo é o lucro. Essa é uma lógica incompatível com a perspectiva da cultura como um direito. Os altos preços dos serviços em algumas linguagens culturais, como teatro e cinema, fazem com que ela seja um privilégio de poucos.

A distribuição dos recursos da área cultural ainda é marcada por grandes distorções. Enquanto o Fundo Nacional de Cultura possui aproximadamente 300 milhões de reais por ano, a política de isenção fiscal recebe mais de 1,5 bilhão. Isso gera uma grande concentração dos recursos nos produtores de São Paulo e Rio de Janeiro, onde estão instaladas as sedes das grandes empresas. Com isso, os produtores culturais ficam a mercê dos interesses das corporações, que, muitas vezes, só financiam as atividades que possam gerar ganhos de publicidade e propaganda. Esta realidade poderá ser alterada a partir da discussão e aprovação do projeto de lei do pró-cultura, em tramitação no Congresso Nacional. Trata-se de um projeto que, se bem aplicado, permitirá a redução destas distorções e disparidades.


Para reverter esse processo, é necessário que a sociedade, por meio do Estado, conquiste o seu protagonismo na criação, distribuição, fruição e acesso dos bens e serviços culturais. Enquanto, nas áreas de saúde e educação, existe a noção de que o Estado deve fortalecer e empoderar os hospitais e escolas públicas, no caso da cultura não existe esta clareza. Teatros, museus e bibliotecas públicas são crescentemente sucateados, enquanto as atividades artísticas são realizadas essencialmente por entidades privadas. Existe a noção de que o professor deve ser um servidor público, mas ao artista a única alternativa é submeter-se aos ditames e vicissitudes da iniciativa privada, cabendo ao Estado somente incentivar os grupos privados. Há poucas companhias públicas de música, no formato de orquestras sinfônicas, e as que existem estão ainda muito ligados à influência da cultura erudita europeia e desconectados da cultura popular.

Outro dilema corresponde à tensão entre federalização e municipalização, ou seja, não há uma definição de quais serviços culturais devem ser prestados por União, estados municípios ou Distrito Federal. Atualmente, eles atuam concorrentemente em todas as áreas, gerando sobreposições e falta de eficiência na condução da política. Espera-se que, com a implementação da Comissão Intergestores Tripartite do Sistema Nacional de Cultura, esta questão possa ser melhor equacionada, definindo as atribuições de cada nível da federação na condução da política cultural, com destaque para os municípios, que estão mais próximo do cidadão.

Em terceiro lugar, destaca-se o dilema da padronização dos serviços e procedimentos versus a diversidade e dinamismo do setor cultural. No Programa Cultura Viva, muitos grupos tiveram dificuldade em cumprir os requisitos e padrões de prestação de contas. No Sistema Nacional de Cultura, é disseminada uma estrutura padronizada de gestão, composta por conselho, plano, fundo, órgão gestor e conferência de cultura. Ao mesmo tempo, a imposição destas regras rígidas pode dificultar a sua adaptação à realidade de municípios pequenos. A criação de padrões é, em si mesmo, um movimento cultural que pode causar perdas de diversidade em algumas situações. Equilibrar padronização e flexibilidade é outro desafio para a política cultural brasileira, sobretudo se considerarmos as dimensões continentais do Brasil.


Desse modo, as políticas culturais brasileiras enfrentam dilemas muito importantes, que só podem ser equacionados a partir de um amplo e respeitoso debate com todos os atores envolvidos. Ao mesmo tempo, constata-se que alguns nós só podem ser desatados se houver o enfrentamento direto com grupos e interesses muito poderosos, de entidades privadas que se favorecem do financiamento público. A cultura precisa ser compreendida como prioridade na agenda de políticas públicas. O fortalecimento das políticas culturais só podem ser obtido com mais investimentos e equipamentos e com a valorização dos servidores públicos da área cultural.

Pedir desculpas? Eu?

                Pedir desculpas pelas suas faltas pode ser muito mais difícil do que desculpar as faltas dos outros. Para desculpar o outro, é preciso reconhecer os erros dele. Mas para pedir desculpas, é preciso reconhecer os seus próprios erros e perdoar-se a si mesmo. Tarefa que pode ser penosa e difícil e que exige altas doses de amor e desapego.
Dalai Lama dizia: “É melhor encontrar um erro em si mesmo do que dezenas nos outros. Porque os seus você pode mudar.” Apesar disso, é mais difícil encontrar um erro em si mesmo, pois implica em reconhecer as suas próprias falhas, golpeando a espinha dorsal do egoísmo. Mais difícil ainda reconhecer os seus erros sem que isso afete a sua autoestima. Muitas vezes, a pessoa que reconhece o erro sente-se tão mal e fraca que não consegue se reeguer. Despojada da vaidade, acaba caindo nos descaminhos da baixo-estima. Desse modo, pedir desculpas é reconhecer-se corajoso o suficiente para enfrentar a apreciação pública de seus defeitos, sem que isso abale a sua autoestima e equilíbrio emocional.
                O pedido de desculpas é um ato público de reconhecimento de uma falta. Para se chegar a ele, no entanto, outras etapas precisam ter sido superadas: reconhecer intimamente o erro e perdoar-se por ele. Conforme o esquema abaixo:

Caminho do Perdão

                
Mas será que devemos pedir desculpas mesmo quando não reconhecemos o erro cometido? 

            Essa é uma questão complexa, que envolve muito meandros. Ao se deparar com uma pessoa que se ofendeu com um ato cometido por você, via de regra, é melhor se retratar.
Mas por que, se não fui eu quem errei?
Você pensa que não errou. “Você não é aquilo pensa que é. Você é aquilo que pensa.” Quando você faz ou diz algo, seus atos e palavras entram em contato com o campo mental de outra pessoa, fugindo ao seu controle. Você pode controlar aquilo que fala e diz, mas não pode controlar o modo como seu interlocutor receberá e tratará aquela informação. Suas palavras e atos, ao interagir com o outro, é interpretado a partir de um complexo conjunto de experiências e memórias do interlocutor. Palavras que parecem inocentes a você podem ter efeitos altamente destrutivos para a autoestima do interlocutor, podem fazê-lo lembrar de experiências negativas do passado, lembranças com as quais ele não sabe lidar muito bem. Por mais que suas intenções tenham sido boas ao proferir aquelas palavras, elas podem ser recebidas como uma grave ofensa, por incidir na sua identidade, sua cultura, seus valores morais, sua família, sua religião, sua organização política.
Quem melhor sabe sobre a gravidade de uma ofensa é aquele se sentiu ofendido. Se o autor soubesse que aquilo seria entendido como uma ofensa, provavelmente não o teria cometido. De modo geral, uma declaração é entendida como uma ofensa por ir contra os valores e ideias da pessoa ofendida. A gravidade de uma ofensa depende, dentre outros fatores, dos seguintes:
·         Do valor moral que o ofendido atribui ao ofensor.
A pessoa vai se sentir mais ofendida quando há uma quebra de confiança. Quando você espera que uma pessoa aja de determinada maneira e ela age de outra forma, contrária às suas expectativas.
·         Do assunto tratado na ofensa.
Se o ofensor tratou um assunto sensível para o interlocutor, abordando uma questão mal resolvida, uma declaração pode ser entendida como uma ofensa. Se você chama de louco uma pessoa qualquer, ela pode se sentir ofendida ou não. Mas se é uma pessoa com histórico de internações em hospitais psiquiátricos, as chances de isso ser entendido como uma ofensa pode ser maior. A sua declaração pode ter reativado um mantido processo de estigmatização, que você desconhecia completamente.
·         Da forma como o ato ou palavra foi feito ou proferido.
De forma geral, a maneira como uma declaração foi feita pode ser vista como agravante ou atenuante. Entre os agravantes estão: o tom irônico, prepotente ou de deboche; o não-reconhecimento posterior da falta. Entre os atenuantes estão: a maneira acidental ou não-intencional como ocorreu o fato.

Se o outro está ofendido com o que você disse, peça desculpas, mesmo que, naquele momento, você não tenha sido capaz de reconhecer o erro. Pode ser que futuramente você o reconheça e aí pode ser tarde demais. O Perdão é libertador. É melhor pecar pelo excesso que pela falta. Mas e quando aquele erro implica em consequências futuras? E quando reconhecer o erro implica em reconhecer uma dívida? Todo erro é uma dívida, assim nos ensina a lei do Karma. A questão é se essa dívida deve ser paga diretamente à pessoa ou grupo ofendido, ou se deve ser pago indiretamente, por outros meios.
Voltemos à pergunta: devemos pedir desculpas mesmo quando não reconhecemos o erro cometido?
Quando o pedido de desculpas não implica em um reconhecimento de dívidas dispendiosas, quando o pedido de desculpa possa gerar efeitos positivos para a sua relação do outro, sem insuflar o seu ego, quando o pedido de desculpas implique em um mero reconhecimento da possibilidade de ter ofendido alguém, mesmo que essa não tenha sido a sua intenção, então ela pode ser um bom caminho. Trata-se, neste caso, de reconhecer a possibilidade de haver cometido um erro na forma, mas não no conteúdo do ato.
Por outro lado, se o pedido de desculpas implica no reconhecimento de dívidas pessoais que você não está disposto a pagar, se o pedido de desculpas implicar em ceder à chantagem do outro ou possa insuflar o seu ego, então desculpar-se pode não ser o melhor caminho.
Em síntese, pedir desculpas implica em reconhecer, em alguma medida, a sua própria imperfeição. Pedir desculpas é reconhecer, no outro, alguém que pode estar sinceramente ofendido pelos seus atos e palavras, seja pelo seu conteúdo ou pela forma com que elas se revestiram. É um ato de amor, capaz de romper laços cármicos muito antigos e poderosos, que remontam a tempos imemoriais.

Devemos desculpar alguém que não pediu desculpas?

Trata-se de outra situação muito complexa. Se ele não pediu desculpas a você, significa que ele não percorreu inteiramente o caminho o perdão, que passa por pelo menos três fases: reconhecer o próprio erro, perdoar-se a si mesmo, expor publicamente seu pedido de desculpas. A primeira fase, de reconhecer o próprio erro, pode se dar de diversas formas e gradações. Pode ser um reconhecimento substantivo de que sua ação causou dano ao outro ou o reconhecimento hipotético de que sua ação pode ter sido interpretada como uma ofensa, embora essa não tenha sido a intenção. Em ambos os casos, pedir desculpas implica em reconhecer, de alguma maneira, as suas imperfeições enquanto pessoa humana.
Se uma pessoa não pediu desculpas, significa que ela não passou pela primeira fase, não passou a segunda fase ou não chegou a terceira fase. Pode se que a pessoa reconheceu o erro, mas não se perdoou. Como ela não foi capaz de se perdoar, talvez suponha que as outras pessoas também não serão capazes. Se ela pula a segunda fase, o pedido de desculpas pode significar um desequilíbrio na autoestima. Por que pedir desculpas para alguém se você mesmo não se perdoa? Por que achar que o outro seria capaz de fazer algo que você mesmo não é capaz, sobretudo considerando que o ofendido foi o outro? Por que achar que o outro lhe perdoaria por algo do que você mesmo não se perdoa? Seria uma incoerência.
O pensamento é recíproco: se fosse o contrário, você perdoaria o outro? Se fosse você o ofendido, você o perdoaria? Perdoar-se a si mesmo, implica, de alguma maneira, em fazer este exercício de se colocar no lugar do outro, analisar a sua capacidade de perdoar o outro e, assim, ser capaz de se auto-perdoar.
O fato de ter passado pela primeira e pela segunda fase não significa, necessariamente, que ele chegará à terceira. A retratação ou pedido de desculpas exige altas dosas de coragem política. É necessário ter capacidade de expor, humildemente, seu erro, e colocá-lo á apreciação do outro.
Dito isso, vamos ao mérito da pergunta: devemos desculpar alguém que não pediu desculpas?
- Sim.
- Mas como, se o outro não pediu desculpas?
Como dissemos anteriormente, o pedido de desculpas é o coroamento final de um longo processo de debate interno, no qual a pessoa se coloca frente a frente com seus próprios defeitos e imperfeições. Vale lembrar que nem todas as pessoas estão condições de passar por este longo processo, mantendo a sua dignidade e humildade, mantendo seu equilíbrio emocional.
Se você está ofendido com uma pessoa ou grupo, das duas uma: ou você se iludiu e depois se decepcionou com o comportamento dela, ou você já esperava, ao menos em tese, que isso pudesse acontecer. Se você já esperava que isso pudesse acontecer, então a ofensa em nada lhe surpreende, sendo que você já devia estar previamente preparado para enfrentar a ofensa e perdoá-la. Se você se iludiu e depois se decepcionou, então compartilha a culpa com o seu ofensor: foi você quem criou expectativas equivocadas sobre aquela pessoa.
O perdão não deve ser condicionado ao pedido de desculpas do ofensor. Não há mérito nenhum em perdoar aquele que já pagou a sua dívida.
Perdoar é ato pleno de amor e desapego. Não há porque condicionar ao pedido de desculpas. Se você reconhece que o outro te ofendeu, mostrando-se insensível aos danos que causaria a você, então ele também pode ser incapaz de perceber o erro que cometeu.
A raiva só é ruim pra quem sente. Da mesma maneira o rancor e mágoa. Analogamente, o principal beneficiário com o perdão é a própria pessoa que perdoa. Condicionar o perdão ao pedido do ofensor é confundir a própria essência do perdão. É achar que o maior beneficiário com o perdão é o ofensor, quando, na verdade, é o ofendido. Ao perdoar, ele rompe o círculo vicioso da violência e abre a possibilidade de o moinho da vida girar em outro sentido. Perdoar é libertar-se de laços cármicos de ódio e rancor.
Vale dizer que, quando ofendemos alguém, é a lei moral que são ofendidas. Quando fazemos algo que prejudica o outro, é a nós mesmos que estamos prejudicando. Tudo que fazemos de mal ao outro retorna para nós, por uma reação mecânica, automática, independente da vontade do outro. Tudo que fazemos de bem ao outro retorna para nós, a partir dos mesmos critérios. Leis morais são irrevogáveis.

“Que um dia possamos despertar deste longo sono e perceber o quão infantil e primitiva é a nossa raiva, fúria, ódio, mágoa, rancor, recalque e desejo de vingança. Neste dia, vamos nos perdoar mutuamente, sorrir um para o outro, nos abraçar e trabalhar juntos.”

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Salvador em branco e preto



Salvador, uma cidade negra
Com uma elite ainda branca
Que fala uma língua ainda racista
Que adora a pomba branca, a paz branca, a pureza
Mas abomina a ovelha negra, o cisne negro, o urubu,
Ah, urubu, que segue desejando nossos corpos
Quando os outros só vêem fedor.
Que acaricia nossas vísceras
Com bicadas famélicas, decididas, assertivas

Nas ruas, negros pedindo esmola para outros negros
Nos palácios, brancos dando esmolas para outros brancos
Nas ruas, negros em situação de rua
Nos hotéis, brancos em situação de brancos,
“Turistas”, ah, turistas,
Escoltados por policiais negros que protegem os brancos de outros negros;
Comprando o mito de uma igualdade racial que nunca vem.

Em Salvador, esse mito é ainda mais emblemático
No teatro Jorge Amado, uma surpresa!
Um ator negro falando sobre racismo
Para uma platéia branca,
Majoritariamente branca,
Incrivelmente branca em uma cidade negra.
O ingresso de 50 reais os “peneirou”.
(O preço proibitivo peneirou o público)
Um protagonista negro,
Um humorista negro
Em uma comédia tragicômica
Que ironiza o mito da igualdade
Desigualdade que a platéia reforça com sua estranha brancura
Com suas gargalhadas racistas,
Diante de piadas discretamente racistas
Que zomba da pobreza negra e periférica
Mas é um ator negro,
Um protagonista negro,
Incrivelmente negro em uma platéia branca,
Incrivelmente branca em uma cidade negra,
Onde o racismo vai se tornando cada vez mais sutil, delicado...
E, portanto, mais poderoso.

No carnaval...
Todos atrás do trio
Alguns dentro da corda: compraram abadá
Outros fora: não compraram abadá

Isabel, a sábia princesa,
Libertou os senhores de engenho
Anistiou seus crimes e faltas,
Condenou os negros a pagarem o aluguel para morarem na senzala
e sentenciou:
Pra que a escravidão
Se nós temos o capitalismo?

Tony Gigliotti Bezerra.

Servidor da cultura

Fonte: http://revistarever.com/2014/02/26/violencia-no-carnaval-ou-o-carnaval-quem-e-que-faz/

domingo, 9 de março de 2014

Dilma e a pedagoga feminista

Fiquei alarmado com o pronunciamento da presidenta Dilma no Dia Internacional da Mulher. É impressionante como se tenta capturar a luta feminista e direcioná-la para um viés capitalista, individualista e exploratório.

Dilma e a pedagoga feminista

Dilma: Você prefere ser explorada por um homem empreendedor ou por uma mulher empreendedora?
Ela responde: Prefiro não ser explorada.

Dilma pergunta: Se não for para a escola, você prefere apanhar do papai ou da mamãe?
Ela responde: Prefiro não apanhar.

Dilma pergunta: Se usar saia curta, você prefere sofrer abuso sexual de um homem ou de uma mulher?
Ela responde: Prefiro não ser abusada sexualmente.

Dilma pergunta: Você prefere venerar a um Deus ou uma Deusa?
Ela responde: A espiritualidade supera qualquer veneração egoísta.

Dilma pergunta: Você prefere ser oprimida por um ditador ou por uma ditadora?
Ela responde: Prefiro não ser oprimida.

Dilma pergunta: Você prefere amar ou ser amada?

Ela conclui: O amor é uma via de mão dupla. O único caminho para o amor é reciprocidade. 

sábado, 8 de março de 2014

Aborto: apoiar não, descriminalizar sim

Neste dia internacional da mulher, resolvi concluir e publicar um texto sobre os direitos das mulheres. No artigo, explico porque mudei a opinião que sustentava durante muitos anos e passei a apoiar a descriminalização do aborto.

Aborto: apoiar não, descriminalizar sim 

                As religiões de matriz cristã tem adotado uma postura de fanatismo no que refere ao debate sobre a descriminalização do aborto. E fazem isso porque supõe que, se o aborto for descriminalizado, os índices de aborto aumentarão. Pior que isso, supõe que as mulheres deixam de abortar pura e simplesmente pelo medo de serem punidas pelo Estado.  Um engano completo.

Primeiramente, é preciso dizer que as mulheres, via de regra, não abortam porque querem, mas porque a sociedade impõe à maternidade uma série de constrangimentos, regras e papeis sociais às quais ela se recusa a seguir no momento em que decide abortar. Ser mãe não é fácil. Ser mãe em uma sociedade capitalista, conservadora e machista é mais difícil ainda. O Estado brasileiro é negligente no atendimento às necessidades das mães e das crianças. Não há creches públicas suficientes para atender à população, não há assistência social à maternidade e à infância, não são respeitadas a dignidade e direitos das crianças e mães. Para piorar, algumas igrejas e denominações religiosas, ao invés de receber fraternalmente as mães solteiras e apoiá-las na criação dos filhos, muitas vezes acabam por estigmatizá-las e excluí-las da comunidade, antecipando-se e impondo na terra a punição que eles acreditam que a mãe deveria sofrer depois da morte. Curiosamente, as mesmas pessoas que recriminam a mulher por ter filhos sem estar casada são as mesmas que defendem a manutenção das leis atuais e o encarceramento da mulher, caso cometa o aborto.

Em segundo lugar, é preciso dizer que nem todas as práticas e hábitos considerados imorais pelo cristianismo são objetos de criminalização legal pelo Estado. Pelo contrário, há diversas práticas e hábitos imorais que não são objetos de criminalização, como, por exemplo: o alcoolismo, tabagismo, os jogos de azar, a usura, o enriquecimento material, a promiscuidade, a prostituição, a mentira, a ofensa, o suicídio, o maltrato e sacrifício de animais para servir de comida, só para citar alguns exemplos. Trata-se de práticas e hábitos considerados imorais, em maior ou menor grau, pelo cristianismo, pois estão relacionados ao materialismo, à dependência química, aos vícios da carne, à objetificação da pessoa humana, à auto-destruição, ao egoísmo, etc, e que, no entanto, não são consideradas crime no Brasil e na maioria dos países laicos de maioria cristã.  Estes são casos que, apesar de serem considerados imorais pelas religiões cristãs, não são objeto de vedação legal. Talvez não seja mera coincidência que estes hábitos imorais não-criminalizados sejam observados mais comumente entre pessoas do sexo masculino.  

                Se eles defendem a criminalização do aborto, porque não defendem a criminalização da prostituição ou do tabagismo, por exemplo? Neste sentido, podemos dizer que os dirigentes das religiões cristãs entram em contradição quando defendem a criminalização do aborto, mas não de outras práticas que eles consideram imorais. Ora, é evidente que a mudança de hábitos não se dá pela via da criminalização, mas da conscientização. Santo Agostinho sinaliza: “Acredito mais naqueles que ensinam do que nos emissores de ordens para crer.” Criminalizar é dar uma ordem para crer, sob pena de ser encarcerado em uma prisão.

                Jesus Cristo rechaça a criminalização como método de mudança de hábitos. Quando Maria Madalena era apedrejada por ter se prostituído, Cristo assevera: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.” Em outra passagem, ele diz: “Ao invés de tirar o cisco dos olhos do outro, retire a trave que está no seu próprio olho.” “Se alguém lhe der uma tapa na face direita, ofereça também a esquerda.” Está evidente a sua opção pela via da não-criminalização. Talvez por saber que as prisões são, em grande medida, faculdades do crime, instituições que fortalecem os vínculos entre os criminosos, que geram a criação de grupos de crime organizado.

Criminalizar não causa mudança de hábitos, a não ser que as penas sejam muito severas e de execução imediata, ocasião na qual as pessoas deixam de praticar o ato por simples medo da punição e não por ato de consciência.

Além disso, não é correto dizer que descriminalizar, por si só, aumentaria a quantidade de abortos. Se a descriminalização do aborto for aliada a políticas de planejamento familiar, prevenção da gravidez indesejada e assistência social a mulheres e seus filhos, a conseqüência é justamente a redução da ocorrência do aborto. O tabagismo se reduziu pela metade no Brasil nos últimos anos e não foi pela via da criminalização, mas da conscientização.

Descriminalizar o aborto, no entanto, não deve retirar a liberdade do médico que seja servidor em hospital púbico, de não proceder o aborto. Se houver um médico ou profissional de saúde que não queira cooperar com práticas abortivas, eles devem ser respeitados, pois o fazem por um imperativo de consciência.

                O fato de algo ser permitido pela lei não significa que as pessoas o praticarão. Muito pelo contrário, sabe-se que “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém.”  Ao invés de julgar os outros com a nossa régua, que é torta e distorcida, devemos inspirar as outras pessoas por meio do convencimento e, principalmente, pelo exemplo. Permitir o aborto não significa que as pessoas devem apoiá-lo. Muito pelo contrário, é a partir da descriminalização que se poderá estabelecer um debate mais sincero e aberto sobre a questão, que ainda é uma tabu na sociedade brasileira.

                Se você é, como eu, contra o aborto, o melhor que pode fazer é incentivar as mulheres a não abortar. Mais do que isso, dispor-se a adotar o filho caso ela não possa arcar com a sua criação, defender políticas públicas de assistência à maternidade e à infância, construção de creches públicas, políticas de conscientização sobre os malefícios do aborto, concessão de apoio material e humano às mães solteiras e que tenham dificuldades em criar os seus filhos.

                É possível defender a descriminalização do aborto sem apoiar a prática abortiva. É o que faz, à anos, o grupo chamado “Católicas pelo direito de decidir”, formado por mulheres que são contra o aborto, mas são mais contra ainda a criminalização e estigmatização das mulheres que cometeram aborto. Abaixo, deixo o link de um excelência debate sobre o assunto, com a presença de uma liderança deste grupo. O país que conseguiu reduzir o tabagismo pela metade em 20 anos, sem criminalização, também será capaz de reduzir os índices de aborto, que castigam tanto aos fetos quanto às mulheres.


Debate sobre a descriminalização do aborto: http://www.youtube.com/watch?v=rlMobV_1h30