quarta-feira, 2 de abril de 2014

Salvador em branco e preto



Salvador, uma cidade negra
Com uma elite ainda branca
Que fala uma língua ainda racista
Que adora a pomba branca, a paz branca, a pureza
Mas abomina a ovelha negra, o cisne negro, o urubu,
Ah, urubu, que segue desejando nossos corpos
Quando os outros só vêem fedor.
Que acaricia nossas vísceras
Com bicadas famélicas, decididas, assertivas

Nas ruas, negros pedindo esmola para outros negros
Nos palácios, brancos dando esmolas para outros brancos
Nas ruas, negros em situação de rua
Nos hotéis, brancos em situação de brancos,
“Turistas”, ah, turistas,
Escoltados por policiais negros que protegem os brancos de outros negros;
Comprando o mito de uma igualdade racial que nunca vem.

Em Salvador, esse mito é ainda mais emblemático
No teatro Jorge Amado, uma surpresa!
Um ator negro falando sobre racismo
Para uma platéia branca,
Majoritariamente branca,
Incrivelmente branca em uma cidade negra.
O ingresso de 50 reais os “peneirou”.
(O preço proibitivo peneirou o público)
Um protagonista negro,
Um humorista negro
Em uma comédia tragicômica
Que ironiza o mito da igualdade
Desigualdade que a platéia reforça com sua estranha brancura
Com suas gargalhadas racistas,
Diante de piadas discretamente racistas
Que zomba da pobreza negra e periférica
Mas é um ator negro,
Um protagonista negro,
Incrivelmente negro em uma platéia branca,
Incrivelmente branca em uma cidade negra,
Onde o racismo vai se tornando cada vez mais sutil, delicado...
E, portanto, mais poderoso.

No carnaval...
Todos atrás do trio
Alguns dentro da corda: compraram abadá
Outros fora: não compraram abadá

Isabel, a sábia princesa,
Libertou os senhores de engenho
Anistiou seus crimes e faltas,
Condenou os negros a pagarem o aluguel para morarem na senzala
e sentenciou:
Pra que a escravidão
Se nós temos o capitalismo?

Tony Gigliotti Bezerra.

Servidor da cultura

Fonte: http://revistarever.com/2014/02/26/violencia-no-carnaval-ou-o-carnaval-quem-e-que-faz/

domingo, 9 de março de 2014

Dilma e a pedagoga feminista

Fiquei alarmado com o pronunciamento da presidenta Dilma no Dia Internacional da Mulher. É impressionante como se tenta capturar a luta feminista e direcioná-la para um viés capitalista, individualista e exploratório.

Dilma e a pedagoga feminista

Dilma: Você prefere ser explorada por um homem empreendedor ou por uma mulher empreendedora?
Ela responde: Prefiro não ser explorada.

Dilma pergunta: Se não for para a escola, você prefere apanhar do papai ou da mamãe?
Ela responde: Prefiro não apanhar.

Dilma pergunta: Se usar saia curta, você prefere sofrer abuso sexual de um homem ou de uma mulher?
Ela responde: Prefiro não ser abusada sexualmente.

Dilma pergunta: Você prefere venerar a um Deus ou uma Deusa?
Ela responde: A espiritualidade supera qualquer veneração egoísta.

Dilma pergunta: Você prefere ser oprimida por um ditador ou por uma ditadora?
Ela responde: Prefiro não ser oprimida.

Dilma pergunta: Você prefere amar ou ser amada?

Ela conclui: O amor é uma via de mão dupla. O único caminho para o amor é reciprocidade. 

sábado, 8 de março de 2014

Aborto: apoiar não, descriminalizar sim

Neste dia internacional da mulher, resolvi concluir e publicar um texto sobre os direitos das mulheres. No artigo, explico porque mudei a opinião que sustentava durante muitos anos e passei a apoiar a descriminalização do aborto.

Aborto: apoiar não, descriminalizar sim 

                As religiões de matriz cristã tem adotado uma postura de fanatismo no que refere ao debate sobre a descriminalização do aborto. E fazem isso porque supõe que, se o aborto for descriminalizado, os índices de aborto aumentarão. Pior que isso, supõe que as mulheres deixam de abortar pura e simplesmente pelo medo de serem punidas pelo Estado.  Um engano completo.

Primeiramente, é preciso dizer que as mulheres, via de regra, não abortam porque querem, mas porque a sociedade impõe à maternidade uma série de constrangimentos, regras e papeis sociais às quais ela se recusa a seguir no momento em que decide abortar. Ser mãe não é fácil. Ser mãe em uma sociedade capitalista, conservadora e machista é mais difícil ainda. O Estado brasileiro é negligente no atendimento às necessidades das mães e das crianças. Não há creches públicas suficientes para atender à população, não há assistência social à maternidade e à infância, não são respeitadas a dignidade e direitos das crianças e mães. Para piorar, algumas igrejas e denominações religiosas, ao invés de receber fraternalmente as mães solteiras e apoiá-las na criação dos filhos, muitas vezes acabam por estigmatizá-las e excluí-las da comunidade, antecipando-se e impondo na terra a punição que eles acreditam que a mãe deveria sofrer depois da morte. Curiosamente, as mesmas pessoas que recriminam a mulher por ter filhos sem estar casada são as mesmas que defendem a manutenção das leis atuais e o encarceramento da mulher, caso cometa o aborto.

Em segundo lugar, é preciso dizer que nem todas as práticas e hábitos considerados imorais pelo cristianismo são objetos de criminalização legal pelo Estado. Pelo contrário, há diversas práticas e hábitos imorais que não são objetos de criminalização, como, por exemplo: o alcoolismo, tabagismo, os jogos de azar, a usura, o enriquecimento material, a promiscuidade, a prostituição, a mentira, a ofensa, o suicídio, o maltrato e sacrifício de animais para servir de comida, só para citar alguns exemplos. Trata-se de práticas e hábitos considerados imorais, em maior ou menor grau, pelo cristianismo, pois estão relacionados ao materialismo, à dependência química, aos vícios da carne, à objetificação da pessoa humana, à auto-destruição, ao egoísmo, etc, e que, no entanto, não são consideradas crime no Brasil e na maioria dos países laicos de maioria cristã.  Estes são casos que, apesar de serem considerados imorais pelas religiões cristãs, não são objeto de vedação legal. Talvez não seja mera coincidência que estes hábitos imorais não-criminalizados sejam observados mais comumente entre pessoas do sexo masculino.  

                Se eles defendem a criminalização do aborto, porque não defendem a criminalização da prostituição ou do tabagismo, por exemplo? Neste sentido, podemos dizer que os dirigentes das religiões cristãs entram em contradição quando defendem a criminalização do aborto, mas não de outras práticas que eles consideram imorais. Ora, é evidente que a mudança de hábitos não se dá pela via da criminalização, mas da conscientização. Santo Agostinho sinaliza: “Acredito mais naqueles que ensinam do que nos emissores de ordens para crer.” Criminalizar é dar uma ordem para crer, sob pena de ser encarcerado em uma prisão.

                Jesus Cristo rechaça a criminalização como método de mudança de hábitos. Quando Maria Madalena era apedrejada por ter se prostituído, Cristo assevera: “Quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.” Em outra passagem, ele diz: “Ao invés de tirar o cisco dos olhos do outro, retire a trave que está no seu próprio olho.” “Se alguém lhe der uma tapa na face direita, ofereça também a esquerda.” Está evidente a sua opção pela via da não-criminalização. Talvez por saber que as prisões são, em grande medida, faculdades do crime, instituições que fortalecem os vínculos entre os criminosos, que geram a criação de grupos de crime organizado.

Criminalizar não causa mudança de hábitos, a não ser que as penas sejam muito severas e de execução imediata, ocasião na qual as pessoas deixam de praticar o ato por simples medo da punição e não por ato de consciência.

Além disso, não é correto dizer que descriminalizar, por si só, aumentaria a quantidade de abortos. Se a descriminalização do aborto for aliada a políticas de planejamento familiar, prevenção da gravidez indesejada e assistência social a mulheres e seus filhos, a conseqüência é justamente a redução da ocorrência do aborto. O tabagismo se reduziu pela metade no Brasil nos últimos anos e não foi pela via da criminalização, mas da conscientização.

Descriminalizar o aborto, no entanto, não deve retirar a liberdade do médico que seja servidor em hospital púbico, de não proceder o aborto. Se houver um médico ou profissional de saúde que não queira cooperar com práticas abortivas, eles devem ser respeitados, pois o fazem por um imperativo de consciência.

                O fato de algo ser permitido pela lei não significa que as pessoas o praticarão. Muito pelo contrário, sabe-se que “tudo nos é permitido, mas nem tudo nos convém.”  Ao invés de julgar os outros com a nossa régua, que é torta e distorcida, devemos inspirar as outras pessoas por meio do convencimento e, principalmente, pelo exemplo. Permitir o aborto não significa que as pessoas devem apoiá-lo. Muito pelo contrário, é a partir da descriminalização que se poderá estabelecer um debate mais sincero e aberto sobre a questão, que ainda é uma tabu na sociedade brasileira.

                Se você é, como eu, contra o aborto, o melhor que pode fazer é incentivar as mulheres a não abortar. Mais do que isso, dispor-se a adotar o filho caso ela não possa arcar com a sua criação, defender políticas públicas de assistência à maternidade e à infância, construção de creches públicas, políticas de conscientização sobre os malefícios do aborto, concessão de apoio material e humano às mães solteiras e que tenham dificuldades em criar os seus filhos.

                É possível defender a descriminalização do aborto sem apoiar a prática abortiva. É o que faz, à anos, o grupo chamado “Católicas pelo direito de decidir”, formado por mulheres que são contra o aborto, mas são mais contra ainda a criminalização e estigmatização das mulheres que cometeram aborto. Abaixo, deixo o link de um excelência debate sobre o assunto, com a presença de uma liderança deste grupo. O país que conseguiu reduzir o tabagismo pela metade em 20 anos, sem criminalização, também será capaz de reduzir os índices de aborto, que castigam tanto aos fetos quanto às mulheres.


Debate sobre a descriminalização do aborto: http://www.youtube.com/watch?v=rlMobV_1h30

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Congresso do MST – um relato pessoal e passional

                 Nesta semana, entre os dias 10 e 14 de fevereiro de 2014, em Brasília, está ocorrendo um evento histórico: o VI Congresso Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Há mais de 15 mil pessoas acampadas nos arredores do Ginásio Nilson Nelson.

                Ontem a noite, 10 de fevereiro, fui até o local para conhecer e interagir. Foi uma experiência fantástica. Conversei com pessoas de diversas matizes ideológicas: anarquistas, socialistas, comunistas, cooperativas, etc.

                Logo que cheguei, dei de cara com um banquinha de livros montada pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro. Provocado por mim, um garoto de 17 anos discorria com muita propriedade sobre o movimento anarquista e sobre as experiências históricas de desenvolvimento do anarquismo: na Manchúria, na Ucrânia, no México, com o exército zapatista, entre outros. Segundo ele, eram eventos que mostravam que o anarquismo não é uma utopia, mais um conjunto de idéias que parte da experiência prática das pessoas.

                Depois comprei uma camiseta do MST, no banquinha ao lado, que é a roupa que ousei vestir no trabalho hoje, como demonstração de apoio ao movimento.

                Continuei circulando e parei em uma banquinha de produtos orgânicos vendidos por uma cooperativa de produtores. O vendedor me explicou que ele é um dos cooperados. No entanto, na cooperativa, também havia pessoas contratadas sob regime da CLT, ou seja, sob as leis trabalhistas burguesas. Mas essas pessoas também poderiam se tornar cooperados, caso se interessem e atendam a determinadas condições. Explicou ainda que os resultados da produção são distribuídos igualitariamente entre os cooperados e que os dirigentes, que trabalham no escritório, têm o mesmo salário que os trabalhadores do campo. Os dirigentes são eleitos pelos próprios cooperados, por mandato de 2 anos, sendo permitida apenas uma reeleição.

              Havia trabalhadores produzindo farinha de mandioca. “Ocupar, resistir e produzir!” Esse é o lema. Registrei em vídeo.


                Depois percebi que estava com fome e fui procurar algo para comer. Encontrei uma espécie de setor de alimentação, com várias cozinhas, pertencentes a vários assentamentos de trabalhadores rurais. Abordei uma mulher que trabalhava em uma das cozinhas e perguntei quanto custava a refeição. Tive uma excelente surpresa. Ela disse que era de graça.

                Mas não havia pratos talheres, cada um trazia o seu. Um rapaz, que ouvia toda a conversa, ofereceu o seu prato e talher para eu comer. Aceitei de bom grado. Havia panelas enormes com arroz, feijão, batatas e repolho. Servi-me. Estava ótimo!

                Havia um senhor sentado na mesma mesa. Ele contou um pouco da sua história, de como entrou para o MST. Uma vida sofrida, como a de tantos brasileiros e brasileiras. Ele não queria mais ser explorado pelo patrão e nem pelo fazendeiro. Então se juntou ao MST para lutar e conseguir um pedaço de terra para plantar e produzir. Participou da ocupação de uma fazenda, a alguns anos atrás. O suposto dono da fazenda reuniu alguns capangas e tentou desocupar a fazenda. Eles resistiram bravamente. Certo dia, vieram algumas caminhotes com capangas armados, para expulsar os acampados. Mas eles já estava preparados para o combate. Também possuíam armas, atiraram para assustar os capangas, que resolveram fugir. Uma carnificina foi evitada. E o acampamento se consolidou. Ele finalmente conseguiu o seu pedacinho de terra, que possui até hoje, onde planta e colhe os frutos de seu próprio trabalho.


                Depois, comecei a conversar com a mulher que me ofereceu comida: Aucídia Fernandes Nunes. Uma pessoa radiante, com brilho nos olhos. Ela resolveu não ser apenas uma expectadora. Decidiu entrar na história e transformá-la. Não sozinha. Mas junto com todos os outros lutadores e lutadoras do MST, reunidos em um acampamento tão grande e cheio de histórias, um congresso do tamanho dos seus sonhos. Ela é cozinheira de uma escola pública, localizada em um acampamento em Rio Bonito do Iguaçu.  É funcionária do Estado do Paraná, com um contrato temporário e precarizado de trabalho. Ela também quer um pedaço de terra. Mostrou uma camiseta do MST, que diz muito sobre o porque ela está ali: “Não somos apenas expectadores, mas atores da história.”

                Havia várias apresentações de cultura camponesa. Uma delas é o do grupo Unidos na Lona Preta, que foi registrada em vídeo.


                Não acredite no que a Globo fala sobre o MST. Não acredite no que a Veja, o Estadão, a Folha e o restante da mídia burguesa capitalista brasileira falam sobre os movimentos populares. Quando era adolescente, só tinha contato com essa mídia. Passei por uma verdadeira lavagem cerebral, que só fui superada quando entrei na faculdade e comecei a ter contato com outras maneiras de ver o mundo. Eles fazem parte de uma elite gananciosa e egoísta, que quer manter os seus privilégios e o seu domínio sobre os corações e mentes das pessoas. Se quer conhecer o MST, converse com as pessoas, vá até um assentamento, o congresso do movimento, visite o site do MST na internet.

                Isso me fez lembrar um trecho do poema Louvor ao estudo, de Bertold Brecht:

“Não temas perguntar, companheiro!
Não te deixes convencer!
Compreende tudo por ti mesmo.
O que não sabes por ti,
não o sabes.
Confere a conta.
tens de pagá-la”

                O MST, sendo um movimento social, grande e complexo, também está imerso em contradições. Sabe-se que os dirigentes possuem algumas ligações com o PT, que é o partido da presidenta da república, que, por sua vez, tem atrasado o processo de reforma agrária. No entanto, todos os partidos e movimentos, em maior ou menor grau, possuem contradições. Somos socialistas, mas precisamos sobreviver em um mundo que ainda é capitalista.  O sistema capitalista nos coloca nessas contradições, que só podem ser superadas por meio da transição para um outro modelo de produção e consumo, mais igualitário, fraterno e consciente. Acredito que o MST está a serviço da superação do sistema capitalista e do latifúndio, da monocultura, do agrotóxico. Mais do que isso, o MST contribui substantivamente para o combate aos latifundiários no Brasil, que é um dos poucos países que nunca promoveu uma reforma agrária ampla e verdadeira.


                Hoje é apenas o segundo dia de congresso, dá tempo de ir ainda. Fica a dica para quem mora em Brasília.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Presidenta pode?


Reflexões sobre variações da língua e seu caráter político

Em todo conceito existe uma prisão e, ao mesmo tempo, as chaves para a libertação. Por meio das palavras, criamos as barreiras que nós mesmos buscamos ultrapassar. Aprendemos a viver rodeado de palavras, conceitos, definições. Muitas vezes, acreditamos tanto nas definições por nós mesmos criadas que pensamos se tratar de conceitos universais, acima do bem e do mal, perenes, estanques. Os conceitos são fluidos, dinâmicos, como a própria linguagem. A gramática normativa procura colocar limites, impor distinções entre aqueles que conhecem a norma e aqueles que a ignoram, entre aqueles que usam a linguagem como símbolo de status e aqueles que a usa somente como meio de comunicação.

                Nasci e cresci sendo ensinado que havia um jeito certo de falar, um jeito certo de escrever. Mas, durante muito tempo, não fui alertado de que esses tais jeitos certos eram tão castradores, elitistas, podadores da criatividade e do dinamismo da linguagem. Não sabia que esses tais jeitos certos eram opressores e carregados de preconceitos. Tornei-me um chato. Corrigia intempestivamente as pessoas do meu círculo social por falarem da forma supostamente “errada”. Mal sabia eu que, na verdade, não se tratava de falar errado, mas de falar diferente daquilo que os meus professores de português ensinaram, que falar errado, na verdade, tratava-se de falar de maneira mais simples, espontânea, sincera, viva.

                Uma das expressões que sempre corrigia as pessoas, inclusive minha mãe era por usar: “Para mim fazer isso...” NÃO, dizia, é “para eu fazer isso”. Tá, então faça você mesmo. “para mim, é para mim até o fim.” E acabou.

Na verdade, existe uma grande variação na palavras, tanto na forma, quanto no conteúdo e no significado. A forma de se falar e escrever muda constante e intensamente, por mais fortes que sejam as instituições guardiãs do marasmo e da petrificação da língua. Petrificação da língua? Sim, existem pessoas que trabalham, voluntária ou involuntariamente para petrificar a língua, mantê-la padronizada, estanque, dura. Mas não conseguem. E a língua não cessa de se transformar. “Água mole em língua dura, tanto bate até que fura”.  


                Um furo marcante na língua portuguesa tem sido protagonizado pela própria presidenta. Ultimamente, muitos lingüistas tem entrado na polêmica sobre o gênero dos substantivos, isso pelo fato de a atual chefe de governo do Brasil ter expressado o desejo de ser chamada de “presidenta”, ao invés de presidente. Os guardiões da gramática normativa e do marasmo lingüístico se alvoroçaram, chegaram a beira de chamar Dilma de analfabeta, de assassina do português. O principal argumento é o de que, de acordo com a gramática normativa, presidente é uma palavra que não possui variante de gênero, bem como servente, dirigente, etc... Ora, se não possui, basta criar. E foi isso que se fez. Recentemente, Juliana Selbach, eleita como presidenta do PSOL-DF decidiu também usar a nova variante de gênero. Mas ela não é somente uma presidenta, mas também uma militanta, estudanta, eleganta, inteligenta, surpreendenta! Dói os ouvidos, dizem alguns. Pois se acostumem, é o som da besta-fera portuguesa libertando-se dos seus grilhões!

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Além do horizonte, uma bicicletada!



Ontem, realizei um antigo sonho: participar da bicicletada, um passeio ciclístico que acontece na última sexta-feira de cada mês em muitas cidades do mundo, inclusive Brasília. A gente se concentrou em frente ao Museu Nacional às 19 horas e partimos às 20h, mais ou menos 20 pessoas. O trajeto foi decidido coletivamente, na reunião que antecede a pedalada. Fiquei impressionado com o cuidado e a presteza do pessoal, a preocupação de pedalarmos em um ritmo tranquilo, que todos pudessem acompanhar, sem deixar ninguém para trás.

            O movimento é bastante horizontal, anárquico. Faz da bicicleta não somente um equipamento de lazer, mas também um meio de transporte, uma ferramenta anti-capitalista, subversiva, revolucionária. Um instrumento de combate à carrocracia[1] e à opressão, por um mundo mais humanos e menos motorizado. Isso se torna muito mais especial por acontecer em Brasília, uma cidade originalmente projetada para carros. Reza a lenda que Lúcio Costa, o urbanista que elaborou o projeto do plano piloto de Brasília na década de 1950, disse o seguinte: “Não imagino ninguém no século XXI sem carro.” Daí o fato de projetar Brasília como se todos tivessem um carro. O século XXI chegou a galope, já entrou na sua segunda década, e o carro tem se mostrado um meio de transporte caro, poluente, violento e que reflete um uso irracional do solo urbano, gerando grandes congestionamentos. A bicicleta aparece como uma alternativa sustentável, barata e altamente viável, sobretudo para terrenos mais planos, como o de Brasília.

                A bicicletada não é apenas um passeio ciclístico, é um movimento político. Passamos por lugares movimentados, bares e restaurantes lotados entoando palavras de ordem como:

“Mais bicicletas, menos carros.
Mais adrenalina, menos gasolina.
Mais amor, menos motor.
Mais tesão, menos combustão.”

“No posto de gasolina, não gasto dinheiro meu
No posto de gasolina só encho meu pneu.”

“Ocupa, ocupa, ocupa e padala.”

Já estive do outro lado: sentado na mesa do bar e vendo as bicicletas passarem. Morria de vontade de um dia estar com eles, pedalando, revolucionando e sambando na cara do sociedade. Este dia chegou.
Outra coisa que me surpreendeu no movimento foi a simplicidade. Os ciclistas da bicicletada não são atletas de elite, que gastam rios de dinheiro com bicicletas, equipamentos e roupas caras. São pessoas comuns, como eu e você, e que decidiram “gozar a liberdade de uma vida sem frescura.”, ousaram quebrar o marasmo e pedalar, resolveram transformar a revolta em arte, alegria, mobilização.

Se você curtiu e quer conhecer, apareça na próxima bicicletada, na última sexta-feira do mês de fevereiro, em frente ao Museu e à Biblioteca Nacional. Se não é de Brasília, procure a galera da bicicletada de sua cidade ou crie uma, se ainda não existir.

Tony Gigliotti Bezerra, militante socialista, do Juntos e do PSOL

Para saber mais:
https://www.facebook.com/groups/bicicletadadf/
http://bicicletadadf.blogspot.com.br/




[1] Carrocracia é um sistema econômico e político que promove o carro, transporte individual e motorizado, como única alternativa de vida, como símbolo de status e fonte de desigualdades e hierarquias sociais.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Nota do PSOL-DF sobre os rolezinhos

Os rolezinhos nasceram como expressão de uma vontade de consumir, se divertir e ostentar. Nada que, em princípio, ameaçasse o capitalismo.

Começaram como encontros de jovens marcados pela internet, nos locais onde a vida no Brasil, por várias razões, passou a dizer que jovens devem se encontrar: nos shoppings.

Cotidianamente nos é vendida a lógica da centralidade do consumo, cujo principal templo é o shopping center –hoje o símbolo máximo da cidade segregada e da cidade mercadoria. E a adesão da juventude a essa lógica é consequência de uma intensa atividade de propaganda e marketing promovida pelas empresas e corporações, por meio da mídia falada, escrita e televisiva.

Dentro dos marcos de supervalorização do poder de compra, o som que impulsionou os rolezinhos foi o funk ostentação. Diferente do rap, conhecido pelo discurso forte e crítico que retrata as dificuldades das periferias, essa vertente do funk vem demonstrar que parte desses (as) jovens aderiu fortemente aos hábitos e valores da classe dominante: a vontade de se afirmar superior aos (às) demais por meio de roupas de grife, adereços, perfumes, carros, casas, etc.

Contudo, esses (as) jovens de periferia, ao se dirigirem ao shopping e darem uma prova substancial de adesão ao capitalismo e aos seus símbolos e rituais, foram confrontados (as) com todo o caráter repressor da classe dominante. Essa contradição mostra que a elite brasileira quer que os (as) pobres (as) sonhem ter os mesmos hábitos de consumo dela... Mas apenas sonhem. Essa elite se mostrou tão racista e discriminatória que transformou potenciais defensores (as) do sistema em vítimas da truculência.

Em resposta, o funk ostentação foi transformado em “funk contestação” e os rolezinhos se espalharam por todo o país. Aqui no Distrito Federal o movimento ganhou esse contorno de contestação e houve rolezinho no Gama e no Lago Norte – este último cancelado em virtude do fechamento do shopping dia 25 de janeiro.

Um fenômeno que toma essa proporção, no “Brasil de Lula, Dilma e Agnelo”, é uma clara demonstração de que o consumo chegou – muitas vezes sustentado pelo trabalho precarizado –, mas a cidadania de direitos ainda está distante. Esse consumo que promete a todos (as) igualar ironicamente vê cor, raça e local de origem. Não há democracia de consumo quando pessoas são barradas discricionariamente na entrada dos shoppings por desejarem ocupar um espaço simbólico que a todo momento lhes encanta e é apresentado como “índice de cidadania”.

Por sua vez, representantes dos shoppings têm se mostrado cada vez mais hostis aos (às) jovens da periferia. Além das primeiras respostas violentas a essa ocupação, promovidas por meio da segurança privada e da polícia, os empresários buscaram liminares na justiça para impedir a entrada da juventude “suspeita”. Essa judicialização demonstra uma tentativa descarada de reforçar o apartheid social com ajuda do próprio Estado. Mais que isso, dirigentes, lojistas e comerciantes estão propondo ao governo a criação de rolezódromos, ou seja, locais públicos aonde jovens da periferia possam ir sem ser reprimidos (as) e sem "incomodar".

É importante destacar que o PSOL defende a criação de espaços públicos cuja centralidade seja a vivência comunitária, os encontros, a criatividade, a produção cultural. No entanto, entendemos que a proposta cínica de rolezódromo é uma estratégia para segregar os (as) pobres, separados (as) dos brancos ricos, que têm acesso liberado ao shopping. Entendemos que essa negação, em especial a violenta, produzirá mais frustração e indignação, sobretudo na juventude.

Dessa forma, o rolezinho está batendo nas portas dos gabinetes de prefeitos, governadores e da presidenta. Tornaram-se uma questão política relevante, entraram na agenda política nacional e os governos precisam dar respostas. São um assunto discutido na internet, nos bares, nas ruas, nas casas, nos shoppings. Muitos governantes e empresários já se pronunciaram sobre o que o Estado deve fazer. Titubeantes, muitos deles, sobretudo os ocupantes de cargos públicos, tentam se esquivar e omitem de que lado estão, se dos (as) jovens da periferia ou dos donos das lojas de grife.

Mas o que está claro é que a preocupação assustada da polícia, da imprensa, do Judiciário e dos governos é mais um indicativo de que algo de subterrâneo está acontecendo neste país, e a reação conservadora aos rolezinhos é apenas mais uma parte disso.

Quando os empresários judicializam a questão, toda sustentação legal para repressão e impedimento ao acesso está amparada no argumento de que o shopping seria um espaço privado, apesar da circulação pública de pessoas.

A cada ano centenas de shoppings são erguidos em todo o país. Só no DF e entorno são aproximadamente 20. Sob o pretexto de movimentar a economia, esses centros são responsáveis por aumento no tráfego de veículos e pela falência dos pequenos comerciantes ao seu redor.

Os donos de lojas afirmam que aquele é um centro comercial privado e que eles podem permitir ou restringir o acesso de quem quiserem, quando bem entenderem. Será mesmo? É preciso lembrar que os shoppings brasileiros são construídos com grande apoio do poder público, por meio de ajudas como: isenções fiscais, subsídios ou até mesmo doações de terrenos; facilitação do crédito para construção, abatimento, subvenções, pavimentação das vias de acesso, etc. Não resta dúvida, portanto, de que esses centros são espaços públicos e como tal devem também ser ocupados.

Por fim, apoiamos e apoiaremos o "Rolezaum" promovido pelo MTST. Respeitamos e compreendemos o protagonismo da juventude, sua espontaneidade e a importância de sua auto-organização. Mas defendemos o papel da esquerda organizada na ampliação do conteúdo contestatório dessas ações.

À luz de toda essa discussão, o PSOL-DF defende uma agenda de políticas que:

Amplie a oferta de serviços públicos relacionados à arte e à cultura;

Crie mais espaços públicos de convivência e encontros, de modo a propiciar o desenvolvimento de relações sociais, culturais, sexuais e afetivas, de maneira democrática e inclusiva;

Fortaleça campanhas de conscientização para a superação do racismo, do machismo, da homofobia e do capitalismo

Estatize os espaços públicos do shopping, tais como corredores, estacionamento, banheiros, praça de alimentação e demais áreas de uso comum, pois entende essa ação como fundamental para que o poder público tenha condições de gerir o espaço de maneira mais democrática e inclusiva, evitando a discriminação e, consequentemente, reverter a crescente privatização dos espaços públicos de convivência.